Sabrina Noivas 89 - The Wedding Knight

Alto, moreno, atraente, e a ltima coisa que ela queria: 1 heri! Quando sua filha desejou que 1 cavaleiro de armadura brilhante aparecesse para salv-las, Livvy no imaginou que o pedido seria atendido to ao p da letra. E de repente sir William Marsh estava l, andando por seu castelo e decidindo a vida de Livvy. Apesar de ele no passar de 1 empregado, William se comportava como 1 verdadeiro lorde, tinha 1 olhar irresistvel e lbios capazes de lev-la  loucura. Mas Livvy no estava disposta a se apaixonar por algum acostumado a salvar donzelas em perigo. Afinal, j tivera 1 dose de heris mais do que suficiente em sua vida...

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1998. Estado da Obra: Corrigida                                                         Gnero: Romance histrico contemporneo
PRLOGO

Em algum lugar da Europa, quinhentos anos atrs

O Castelo Marsh no havia mudado durante a longa ausncia de sir William. Pelo menos, no do lado de fora.
Cansado de tanto de viajar, ajeitou o corpo sobre a sela e saboreou o momento em que a tradicional brisa da regio refrescou sua face.
Pela aparncia, o castelo absorvera melhor do que ele prprio aqueles seis anos que haviam se passado, j que no havia sequer um arranho a mais na grande estrutura de pedra. Quanto a seu corpo, oculto pela surrada armadura, no poderia dizer o mesmo.
Mas j estava chegando em casa. Era tempo de assumir uma vida quieta, arrumar uma esposa obediente e gerar alguns herdeiros. Parecia o momento ideal para deixar de lutar em batalhas que no eram suas e deixar o mundo mudar tanto quanto quisesse.
Iria se certificar pessoalmente para que o Castelo Marsh no mudasse.
Fazendo o cavalo prosseguir em frente, sentiu-se feliz ao ouvir o rudo dos cascos e ferraduras do animal contra a madeira da ponte levadia, imaginando como seria gratifi-cante sentar-se diante da lareira, em sua poltrona predileta, no saguo principal.
	Abram o porto!  gritou ele, olhando na direo do posto de segurana, no alto da torre da entrada.
	Quem vem l?
A pequena guarita, construda para proteger o soldado que estivesse de guarda, ocultava o homem que ali estava no momento. Mas no disfarou a sonolncia no tom de voz daquele sentinela.
	Sir William Marsh.
	Milorde!
	Sim, sou eu. Mais tarde conversaremos sobre seu cochilo em servio, seu guarda dorminhoco.
Em seguida, ouviu o som de passos rpidos sobre as pedras do piso interno. Escutou ento aquela mesma voz de antes, j menos sonolenta, gritando avisos sobre a inesperada chegada. As dobradias rangeram, como sempre, quando os portes foram abertos, trazendo-lhe antigas lembranas.
Contudo, aquele era um momento de reencontro, no de reviver memrias. Pressionando levemente as esporas de ouro contra o couro do cavalo, entrou no ptio do castelo.
Uma pequena multido comeava a se acumular. Um servo se adiantou e segurou o estribo de sua montaria, conduzindo-o com cuidado at a entrada interna.
	Lorde William!  exclamavam alguns dos trabalhadores da regio, que tinham a honra de prestar servios dentro de seu castelo.
"Ento  mesmo verdade", pensou ele, ao ser reconhecido como lorde em vez de sir. Seu pai estava mesmo morto. Havia se passado muito tempo, quase dois anos, desde que ouvira aquela notcia no campo de batalha.
	Pensamos que estivesse morto, milorde  sussurrou um dos antigos serviais da famlia.
William desmontou e retirou o elmo de batalha, colocando-o sob o brao.
	Como pode ver, estou muito bem.
	Sim, milorde. Creio que precisar de ajuda, no ? Espero que me d a honra de aceitar meu filho como seu assistente at que encontre um escudeiro.
	Talvez. Por hora, quero saber por que h homens acampados do lado de fora das muralhas. Quem so eles?
	Trabalhadores, meu senhor. A maioria de Newton e  Spalding, mas alguns vieram de lugares distantes como Turnbridge. O trabalho no castelo comea hoje.
	Trabalho? Que trabalho?
	Oh, ser uma grande obra, milorde. As reformas que lorde Edw... oh, que seu irmo Edward est planejando sero magnficas. Ele prprio descreveu que "o novo saguo ser o maior e mais sofisticados de todos". As defesas tambm sero reforadas e novas torres j esto sendo construdas. 
"Reformas? Mudanas?"  Onde est meu irmo?
	No escritrio de seu pai. Vou lev-lo at l, milorde.
	No seja tolo, homem. Acha que no posso andar em meu prprio castelo? Sei muito bem onde fica.
A fadiga o abandonou assim que se colocou a caminho do escritrio, caminhando a passos largos pelo ptio intermedirio, rumando para o saguo interno.
Uma bela senhora, puxando pela mo uma jovem que mais parecia uma verso mais jovem dela prpria, aproximou-se dele para tentar intercept-lo em sua trajetria.
	Gostaria de lhe falar sobre minha linda e prendada filha, milorde.
Pelo canto de sua viso perifrica era possvel ver outras duplas se aproximando, vindo da direo oposta. Era verdade que pretendia mesmo arranjar uma esposa, mas no algum to jovem quanto aquelas moas.
	Milorde, se me desse um minuto de sua ateno  insistiu a ansiosa me da jovem.
	Silncio!  exigiu William, afastando-se e entrando no grande saguo central, ainda inalterado.
O lugar parecia perfeito tal como era. No precisava de remodelao alguma.
Fazendo sua armadura gerar ainda mais rudo, subiu depressa a escada que levava ao piso superior, onde ficava o escritrio particular de seu pai. O cmodo passaria a ser seu j que era o filho mais velho, herdeiro do ttulo e da responsabilidade de ser o novo lorde do Castelo Marsh.
Depois de tanto tempo, reencontraria seu irmo. Poderia abraar e perguntar sobre o que acontecera ao longo daqueles anos. Teria o rapaz se casado? Aquele tipo de mudana seria bem-vinda.
Ento ordenaria que os trabalhadores partissem.
	Edward! Edward, estou em casa! bradou ele, abrindo a porta do escritrio onde seu pai se refugiava por horas, as vezes dias, sem que ningum o visse.
Edward, que estava  janela, virou-se devagar para receb-lo. Mesmo com o brilho do sol s costas do irmo, William pde olh-lo com ateno, medindo-o em um mero instante.
	Meu irmo, como voc cresceu!
A exclamao, cheia de orgulho, foi acompanhada de um sorriso sincero. O caula da famlia seguira a tradio dos Marsh e herdara o porte e a musculatura bem desenvolvida de todos os homens de sua linhagem.
O sorriso de Edward foi bastante discreto.
	Pensamos que estivesse morto. Algum precisava as sumir tudo isso.
	Bem, agora estou em casa  disse William, abrindo os braos e caminhando na direo do irmo, com a inteno de abra-lo, detendo-se ao ver que ele empunhava uma espada.  O que  isso? Os trabalhadores e os guardas no pareceram temer minha chegada, tampouco esperavam
algum tipo de ataque. Ainda assim voc me recebe com uma arma em punho?
	Nosso pai adoeceu logo aps sua partida. Cuidei do castelo e da propriedade ao longo dos ltimos seis anos.
	Entendo. Agora pretende lutar para continuar no comando?
	Se for necessrio.
	Talvez eu deva lembr-lo de que estive lutando sem parar, participando de batalhas ao longo dos ltimos seis anos.
Ao ouvir aquilo, Edward o fitou de cima a baixo.
	Vejo que manteve seu corpo inteiro. Por acaso andou enfrentando apenas mulheres e crianas?
A risada de William foi curta. Seu irmo assumiu uma postura ofensiva, obrigando-o a erguer o elmo e ameaar coloc-lo. Mesmo contra a prpria vontade, deveria fazer o que fosse necessrio. Antes, porm, deveria tentar  evitar o confronto.
	No poder vencer, Edward. Tenho muita experincia. Mais do que a maioria dos cavaleiros vivos. E por isso que contam tantas histria a respeito de minhas batalhas.
Por fim o mais jovem soltou uma risada, demonstrando no estar impressionado com o que ouvira. Em vez de ficar amedrontado, ele ergueu a espada e deu o primeiro golpe, forando William a desembainhar sua arma para se defender do ataque.
	Pelo visto sua garganta  grande demais para o colarinho de sua armadura, meu irmo. No ouvimos histria alguma a respeito de suas supostas "proezas".
Colocando o elmo em um gesto que denotava anos de prtica, ele resmungou antes de responder:
	Ento todos por aqui esto surdos.
Enquanto falava, defletiu o segundo ataque feito contra si.
	Talvez no houvesse o que ouvir a seu respeito  desafiou o mais jovem, ao desferir o terceiro ataque.
Embora tenha sido um bom golpe, dado com fora suficiente para incapacitar um homem, foi fcil para William bloque-lo. Mal as espadas se tocaram, a sala ficou enevoada. Surpreso, encarou seu irmo e deu um passo para trs.
	Edward?
Foi a ltima coisa que disse, enquanto observava o franzir de cenho do mais jovem dos Marsh. No instante seguinte, tudo ficou escuro.
	Que tipo de magia negra  essa que trouxe consigo, William?  exigiu Edward, olhando ao redor, caindo sentado no cho da sala subitamente vazia.  Onde diabos voc se meteu?
O equilbrio de William desapareceu por completo. Mesmo abrindo os braos e afastando as pernas, sentiu que caa livremente, como se tivesse sido arremessado pela janela por um mo gigante e invisvel.
Mesmo com os olhos abertos no era possvel enxergar nada. S lhe restara a opo de fech-los e aguardar o inevitvel impacto fatal, que aconteceria cedo ou tarde...


CAPITULO I
Castelo Marsh, dias de hoje.

	Est bem  murmurou Liwy RaVenwood, segurando o telefone sem fio com a prpria cabea, pressionando-o entre o ombro e o ouvido. Ao mesmo tempo, polia aquelas peas de madeira escura que pareciam to antigas quanto o prprio castelo. O lugar tinha em torno de setecentos ou oitocentos anos de idade, no mnimo. Talvez mais, pela quantidade de sujeira que encontrara em alguns lugares. Vinha se perguntando em que havia se metido daquela vez.
	Sim, mame, claro que estou ouvindo  prosseguiu ela.
Parecia um movimento difcil, j que estava com o telefone preso ao ombro. Mas, com um pequeno esforo, conseguiu levar as duas mos para trs da cabea a fim de ajeitar o elstico revestido de cetim rosado que mantinha preso seu rabo-de-cavalo.
Mesmo no gostando de prender seus cabelos dourados um dia aps o outro, aquela era sua nica opo, considerando o vento constante e o tipo de trabalho que vinha fazendo no Castelo Marsh. No queria passar a maior parte do tempo tentando enxergar entre os finos fios dourados pelos quais tinha tanto apreo.
	Posso ouvi-la muito bem, mame. Na verdade parece estar aqui mesmo, na sala ao lado, e no do outro lado do Atlntico. Voc amda est em Chicago no ?
George, o empreiteiro que estava cuidando da reforma do lugar, emitiu um rudo de impacincia, apoiado na mesa do lado oposto da sala. Estava analisando uma planta, aberta sobre o grande tampo de madeira envernizada. Deveria estar planejando derrubar outra parede, como era sua especialidade. As renovaes no castelo Marsh estavam a meio caminho. Isso permitiria que ela e seu av abrissem a pousada que haviam planejado. Mas havia um casamento programado para acontecer ali no dia seguinte e o servio de limpar e polir ainda estava longe de ser terminado. Haveria convidados por todos os lados em menos de vinte e quatro horas. Sua me completava a cena, exigindo sua completa ateno naquele exato momento.
	O que quer insinuar com "repita o que acabei de dizer"? No me diga que esqueceu, mame.
Liwy ajeitou a blusa comprida sobre o short colante enquanto ouvia a sra. Ravenwood expressar suas dvidas a respeito da ateno que estava recebendo e da forma como sua neta estava sendo educada.
Muitas vezes era mais simples fazer o jogo dela para evitar perda de tempo.
	Certo, me. Voc acabou de dizer que Chelsie ligou para contar uma histria sobre um "cavaleiro em brilhante armadura", o que a deixou preocupada sobre minha filha saber separar o que  faz-de-conta do que  realidade.
Com aquela simples frase era resumiu os dez minutos de falatrio a que fora submetida. No fazia muita diferena se era aquele ou no o cerne da questo, pois j ouvira a mesma reclamao muitas vezes. Sua me sempre dizia que a pequenina tinha uma imaginao "frtil demais para uma garotinha de apenas oito anos".
Contudo, era bem melhor ouvir aquele tipo de conversa do que o outro tema predileto da sra. Ravenwood: arrumar-lhe namorados. Era mais agradvel que sua habilidade em criar sua prpria filha fosse questionada.
	Falarei com ela, mame.
	Oua, querida, j que estamos no telefone...
"Oh, no", pensou em silncio.
	...acho que devo lhe contar. Conheci uma mulher no salo de cabeleireiros que contou ter um sobrinho adorvel morando aqui em nossa cidade. No seria maravilhoso se voltasse e o encon...
	Me  advertiu Liwy, pensando em como seria bom se tivesse mais umas seis irms. Uma para ocupar a ateno da sra. Ravenwood em cada dia da semana.
	Mas, querida, s estou dizendo isso porque a amo e quero v-la feliz.
	Estou muito feliz e muitssimo ocupada. Tambm amo voc. Adeus, mame  concluiu ela, desligando o telefone antes que houvesse tempo para que qualquer outra palavra fosse dita.
George, que estava ainda apoiado sobre a mesa segurando aberta a grande planta do castelo, sorriu com simplicidade.
	Mes parecem ser iguais no mundo todo, no ?
	Sim, concordo. Mas acho que sofro de "overdose materna", j que sou filha nica  falou Liwy, pegando a flanela que estava usando para polir e jogando-a sobre a crescente pilha de panos sujos.  Bem, qual a parede que quer derrubar agora?
Um estrondo a interrompeu de repente. Parecia vir do escritrio pessoal de seu av.
	Seus homens no esto trabalhando l, esto, George? Se estiverem, vov vai ter um ataque.
	Garanto que no. Mas bem que eu gostaria de ter uma chance de convenc-la a mexer naquela rea.
Liwy ergueu a mo, gesticulando em pedido de silncio.
	Oua, parece que h algum se movendo por l.
	Tive a impresso de ouvir sons metlicos  disse o empreiteiro.
Ela saiu depressa, dirigindo-se para o local, enquanto falava em voz alta:
	Chelsie, espero que no seja voc, j que sabe muito bem das regras sobre o escritrio pessoal do vov...
Mal deu dois passos dentro da referida sala e seu p bateu em uma armadura que estava cada  entrada. Um pequeno salto a salvou de cair sobre o conjunto de metal que jazia inerte no cho, com a frente voltada para cima e o visor fechado. Pelo ngulo que os braos e pernas formavam, parecia haver cado naquele lugar.
Uma vez do lado de dentro, desviou os olhos da estranha pea e encarou George, que estava parado  porta. Tinha os polegares enfiados em seu cinturo de ferramentas e resmungava:
	Mas que porcaria...
Liwy circundou a armadura, examinando-a e tentando imaginar de onde poderia ter cado para ficar naquela posio.
	No me recordo de ter algo assim aqui em casa.
	Bem, garanto que est aqui agora  disse o empreiteiro, que retirou uma trena de seu cinto e mediu a pea com ar apreciativo.  Isso  enorme... quase dois metros. Pode ser que seu av a tenha comprado para enfeitar a pousada.
Sem perceber, Liwy soltou um suspiro desanimado. A parceria que formara com seu av exigia que ele cedesse apenas o local. A parte financeira, o trabalho e a decorao eram incumbncias dela.
A nica rea que estava sendo difcil de cuidar era a financeira, graas  falta de dinheiro.
Como encaixaria a pea na decorao era uma questo que no teria resposta fcil. Se autenticidade pudesse ser medida por uso e desgaste abusivo, aquela coisa poderia ser julgada como genuna. As esporas at mesmo pareciam de ouro. Isso sem falar nos arranhes e nas manchas, que pareciam vir de muitas batalhas.
	Voc ter tempo de polir essa coisa?  questionou George.
	Oh, claro. Talvez na virada do sculo.
Enquanto ria, o empreiteiro se voltou para a parede do lado oposto do escritrio.
	Se derrubarmos esta lateral aqui e aumentarmos a sala...
Liwy ouviu um resmungo atrs de si e deduziu, sem dvida alguma, que era seu av. Fazia quase uma semana que praticamente no o via. Seria muita ironia do destino que ele aparecesse naquele momento, bem a tempo de implicar com a sugesto do outro homem.
Virando-se depressa, estava pronta para assegurar que ningum tocaria nas paredes do escritrio, mas seu av no estava l.
No havia ningum  porta tampouco no corredor.
Com os braos abertos, George prosseguiu com sua sugesto, sem notar a movimentao dela:
	...ento poderamos estender a parede lateral at o outro lado.
O mesmo resmungo se fez ouvir outra vez.
	Voc escutou isso?  questionou ela, olhando pela nica porta sem nada encontrar.
	No sei  com o punho fechado, o empreiteiro deu um murro leve na parede de pedras.  Muitos rudos so comuns nesses lugares. Soa normal para mm, como em qualquer estrutura antiga.
Depois de soltar um suspiro, Liwy se abaixou e passou o dedo pelo metal do peito da armadura, imaginando o trabalho que teria para limp-la. Estava comeando a ficar tentada a pedir que George a ajudasse a levar a pea para o calabouo, para que no atrapalhasse a decorao do casamento.
	Podemos comear a trabalhar aqui no dia seguinte  festa. Estas paredes daro um pouco de trabalho, mas ficar muito melhor depois  concluiu o homem, com ar resoluto.
O resmungo foi mais ntido do que nunca. Um som que o av dela emitiria se estivesse ouvindo aquela sugesto. Daquela vez, percebeu que o som vinha da armadura, logo abaixo dela. Aquilo a fez concluir que havia ficado tempo demais exposta ao cheiro dos produtos de limpeza, pois estava comeando a delirar.
	Ei, tudo bem com voc?  indagou ele.
	A menos que esse "tanque de guerra" medieval possa emitir rudos por conta prpria, acho que estou apenas exausta. Obrigada pela preocupao.
	Isso  assim mesmo. Minha esposa sempre ficou mais cansada do que o normal quando engravidou. Temos trs crianas.
Liwy levou a mo ao abdome de maneira automtica. Ainda no precisava de roupas de gravidez, j que suas tnicas e shorts colantes ainda lhe serviam bem. Era uma surpresa quando algum demonstrava estar ciente de sua gravidez.
Seria me solteira e fazia apenas trs meses que chegara  Europa. No conhecia ningum que pudesse fazer fofoca a seu respeito. Contudo, com uma filha de oito anos tagarela como Chelsie, aquilo no deveria surpreend-la.
Ento, ao fitar mais uma vez a armadura cada, concluiu que no poderia encost-la no calabouo. Lembrou-se de que devia muito dinheiro a Lo, seu vizinho e pai da noiva. Fora quem encomendara o casamento que ocorreria no castelo no dia seguinte. Segundo ele prprio, o evento deveria ter um "clima" medieval.
Se tudo corresse bem e os convidados ficassem impressionados, a festa seria uma alavanca para a publicidade da pousada que estava prestes a inaugurar ali.
Acho que preciso encontrar onde est o polidor de metais.
	Tem certeza de que ficar bem?  indagou George.
	Claro. Vou me sentar no cho, aqui mesmo, para esfregar toda essa lata.
"Mas tinha de ser to grande?', questionou-se em pensamento. Se bem que, se tivesse de imaginar um "cavaleiro em brilhante armadura", teria idealizado algum daquele tamanho. Ombros largos, peito amplo e muita musculatura para movimentar todo aquele metal pesado pelos campos de batalha.
Ao se flagrar suspirando, concluiu que sua filha havia conseguido aquela imaginao frtil por herana gentica.
O empreiteiro colocou uma cadeira atrs dela, dizendo:
	Acho que deveria se sentar um pouco. Voc tem trabalhado demais.
	Por qu diz isso?
	Est com o rosto muito corado.
	No seja tolo  murmurou Liwy, desviando o olhar.
	Nesse caso, vamos falar sobre a derrubada da parede...
	Embora eu at considere a ideia boa, sei que meu av no quer que mexamos em nada dessa rea.
	Mas seria uma tima sute.
	No. Esta  a nica parte de todo o castelo que ele quer conservada, ento, assim ser.
	Certo  concordou George, lanando um ltimo olhar para a parede e soltando um suspiro.  Voc  a chefe.
Acho que  melhor eu voltar ao trabalho.
	Otimo  concordou ela, voltando a analisar o problema que tinha em mos.
Como limparia aquela armadura enorme? J que Chelsie parecia ser capaz de inventar infinitas histrias de cavaleiros e damas, seria uma boa ideia conseguir alguma ajuda da pequenina. Alm disso, o falatrio dela seria muito til naquele momento.
Precisava de alguma coisa que a distrasse, pois seus pensamentos insistiam em tomar um rumo "censurvel" s de imaginar o tipo de corpo msculo que um homem precisaria ter para preencher todo aquele espao.
William no sobreviveu aqueles seis anos de batalha sem aprender estratgia. No que tivesse o hbito de usar de artimanhas em suas disputas: se algum ousasse acus-lo de falta de honradez, perderia a lngua da hora. Mas enfrentara alguns homens que chegaram a tentar engan-lo fingindo-se de mortos.
Ficou completamente imvel at que o tal George e a dama deixassem a sala, mesmo que seu desejo fosse o de abrir o visor para verificar se a beleza daquela jovem se equiparava  candura de sua voz.
Mas ele se conteve e ficou inerte. Foi difcil permanecer quieto quando aquele homem sugeriu derrubar a parede. Seria possvel que Edward no tinha vergonha? Porque ele queria derrubar todo o castelo, que fora construdo com tanto trabalho por seus ancestrais? E quanto quela dama? Poderia ser a esposa de Edward?
"Por Deus, espero que no!", pensou, ao cogitar tal possibilidade.
Se fosse, voltar para casa e cobiar a mulher de seu irmo iria causar constrangimentos sem precedentes para a famlia. Claro que, uma vez que ficasse de p, encontrasse o caula dos Marsh e terminasse a disputa pelo castelo, era provvel que ele e sua esposa partissem.
William tivera a chance de v-la apenas de relance pelas frestas de seu visor quando a dama se inclinou para fit-lo. Falara de sua armadura como se fosse um escudeiro. Mas que bela viso tivera! Cabelos da cor do mais puro ouro, embora o motivo de estarem presos atrs da cabea, formando algo parecido com o rabo de um cavalo, fosse' algo alm de sua compreenso.
Se aquela era a mudana que havia ocorrido na moda naqueles ltimos seis anos seria difcil se adaptar e gostar do que teria de ver a seu redor.
A pele dela era clara e seus lbios pareciam perfeitos, alm de sorrirem com facilidade. No pudera v-la abaixo dos ombros, mas deduziu que era alta e esguia.
Ouvindo que George estava trabalhando na sala adjunta, achou melhor permanecer imvel mais um pouco de tempo. No momento em que tudo ficou quieto e William estava prestes a rolar de lado para se levantar, uma garotinha entrou no escritrio e se atirou sobre seu peito.
	Nossa! O vov arrumou um cavaleiro andante.
Aquilo o fez suspirar. No que a menina fosse pesada, mas ela se inclinou e comeou a espiar pelas frestas do visor.
Talvez a criana fosse inocente o bastante para achar que no havia ningum l dentro, caso ele permanecesse imvel. Mas a pequenina estava to prxima que era possvel ver sardas naquele nariz arrebitado. Um palito amarelo estava preso atrs de sua orelha direita, em meio aos cabelos dourados. Seus olhos eram de um azul profundo, como os de sua me.
No havia dvida alguma de que a garota era filha da bela dama que admirara minutos antes. Se estivesse enganado, seria por pouco. Tamanha semelhana indicava um alto grau de parentesco.
Deveria procur-la assim que acabasse a disputa com Edward, para pedir desculpas por ter sido obrigado e enfrent-lo.
A menina montou no peitoral da armadura, segurou-lhe o brao direito e testou as juntas.
	Ol. Meu nome  Chelsie. Eu moro aqui. Voc veio para o casamento?
"Oh, talvez a dama seja apenas noiva de Edward e nem precise partir com ele", pensou, esperanoso.
	Voc  um cavaleiro de verdade?  inquiriu a garotinha.
Anos antes, William tivera uma filha. Estava ciente de que as perguntas no teriam fim, a menos que ela pensasse que a armadura estava vazia.
	J participou de algum torneio?  insistiu Chelsie.
Foi preciso conter o desejo de gritar para que aquela minscula insubordinada sasse de cima de seu peito e parasse de fazer perguntas idiotas. Era bvio que participara de inmeros torneios. Onde mais adquiriria a experincia necessria para sobreviver a seis anos de batalha?
	Esta  uma espada de verdade, que j cortou fora a cabea de algum?  prosseguiu a menina, em seu infindvel questionrio.
Aquilo era tudo o que poderia suportar. Respirando de maneira profunda, expandiu o trax e ergueu o peitoral da armadura, tentando assust-la para afugent-la dali.
Pelo visto era uma criana valente, pois nem mesmo se alterou. O resmungo que emitiu em seguida foi to intil quanto a primeira tentativa de espant-la.
	E ento? J cortou?
	Cabeas, no. Mas minha arma j cortou a lngua de uma pequena garota que no soube se comportar.
Aqueles lbios delicados se curvaram em um sorriso infantil e espontneo. Foi possvel ver os olhos azuis brilhando ainda mais, como se um tesouro tivesse sido encontrado.
	Assombroso!
Arrependido, William concluiu que deveria ter pensado melhor antes de se manifestar. Seu instinto a respeito da menina o alertara de que algo assim aconteceria.
	Nesse caso  prosseguiu ela  poderei cobrar algum dinheiro para deixar as crianas tocarem sua espada na festa de casamento. Darei trinta por cento para voc lhes contar uma histria sobre cortar a lngua de uma garotinha.
"Que tipo de maldio Edward jogou sobre mim?" Ele s poderia ter usado algum tipo de magia para evocar aquela escurido nebulosa e depois enviar aquela criana para atorment-lo at seu limite. A pequenina no teve sequer a decncia de demonstrar medo ao ser erguida pela cintura e colocada de lado, nem ao v-lo ficar de p e se postar de maneira imponente. Limitou-se apenas a erguer a cabea e encar-lo, com o mesmo brilho mercenrio de antes em seus grandes olhos azuis.
Ela pegou o palito amarelo que trazia atrs da orelha.
Vou redigir um contrato. A vov me ensinou como se faz. 
Ao ouvir o som de passos se aproximando, William preferiu conservar o elemento surpresa, recostando-se  parede.
	E ento? Temos um trato?  perguntou Chelsie.
	Silncio  ordenou ele, concentrando-se no que ouvia.
Era apenas um par de ps ou haviam dois pares? Seria aquela dama angelical ou o demonaco Edward, que parecia ter desenvolvido aptido para magia negra? A menina colocou as mos na cintura.
	Setenta/trinta, est bem? Isso quer dizer que fico com setenta por cento do que ganharmos e voc com trinta.
Nunca fora vencido em uma negociao, muito menos por uma criana precoce. Mas perderia sua vantagem se continuasse a barganhar com ela. Mais do que depressa, levou a mo  espada para se preparar, mas nada encontrou. A arma estava cada, a alguns passos de distncia Pegou ento a maa e a balanceou de maneira equilibrada, com o brao erguido, ficando imvel como uma esttua na lateral do escritrio.
Ento sussurrou:
	Pode ficar com metade para si mesma se no me de nunciar agora.
	Nem pensar, moo. Este castelo  do meu bisav, e no seu. Por isso, nossa famlia  quem faz as regras.
	Chelsie? E voc que est a?  ecoou a pergunta, vinda do extremo oposto do corredor, antes que aquela afirmao pudesse ser questionada.
Fechando os olhos, William apenas suspirou. No teria tempo para discutir. Havia uma luta a ser disputada e no lhe restava alternativa, exceto vencer.
A garotinha levou o palito amarelo aos lbios, roeu sua extremidade por um ou dois segundos e esto apontou-o na sua direo.
	Vamos deixar por sessenta/quarenta.  o melhor que posso fazer. Pegue ou largue.
	Concordo.
"E que sua av no lhe ensine mais nada, seja ela quem for", pensou, depois de murmurar sua resposta.
Com o frasco de polidor de metais e um farrapo em uma mo e um chumao de palha de ao na outra, Liwy voltou para o escritrio de seu av. Ao entrar, flagrou Chelsie no apenas olhando para a armadura, mas falando com ela.
Por mais que odiasse ter de admitir, era possvel que sua me estivesse certa e que fosse difcil para a pequenina separar realidade de fico. Deix-la acompanhar o bisav, famoso por suas excentricidades, deveria estar comeando a afet-la.
Contudo, as histrias que ouvia dele vinham despertando na menina o gosto pela leitura e o desejo de escrever. Tanto que, nas ltimas semanas, andava o tempo todo com um lpis atrs da orelha e um bloco de anotaes no bolso.
	A est voc  disse ela.  Estive a sua procura.
	Ainda no est na hora de dormir, no ?
	Claro que no.
	J tomei banho hoje.
Liwy sorriu.
	Ento no pretende me ajudar a polir essa armadura?
Chelsie pegou o bloco de notas e o lpis.

	Prefiro que me diga como se soletra "armadura".
Estou escrevendo uma histria sobre um cavaleiro andante e uma donzela.
	Quem lhe contou essa?
	Ningum.
	Est bem, l vai: a-r-m-a-d-u-r-a. Falando nisso, como foi que colocou isso aqui de p?
	No fiz nada. "Isso" ficou de p sozinho, mame.
Ao acabar de responder, a pequenina deu uma piscadela para a armadura, deixando sua me ainda mais preocupada.
Soltando um suspiro desanimado, Liwy se aproximou da grande pea de metal e a mediu com o olhar. George estava certo. Quem quer que tivesse usado aquilo era mesmo muito grande e musculoso. Era considerada uma mulher alta e mesmo assim era mais de meio palmo mais baixa do que a vestimenta metlica.
O que significava mais rea para limpar e polir.
Ao tentar mover a pea para longe da parede para avali-la, descobriu que a mesma parecia pregada ao cho de to pesada e firme que era.
	Agora tenho certeza de que voc no poderia ter movido isso sozinha  resmungou ela, lanando um olhar para a filha.
	Claro que no.
	E esta maa?
	O que h com ela?
	No me lembro de v-la assim, presa  luva  falou Liwy, concluindo que os produtos qumicos estavam afetando seu bom senso.  Filha, por favor, abra a janela, sim?
	Est ventando muito l fora.
	Sei disso, mas preciso de ar fresco.
	Vai limpar a armadura agora mesmo?  indagou a menina, ao atender a solicitao da me.
	Sim. Mas preciso descobrir uma maneira de desencost-la da parede para poder limp-la toda.
Decidindo fazer uma coisa de cada vez, deu de ombros e passou a esfregar o peitoral de metal com o polidor. Foi impossvel deixar de se lembrar da ltima vez em que esteve to prxima de um peito masculino real. Fazia muito tempo, pois seu casamento ainda estava indo bem na poca. Chelsie era apenas um beb.
Depois da separao, no conhecera nenhum homem pelo qual valesse a pena correr o risco de se envolver.
Quanto mais esfregava aquele peitoral, mais imaginava quo interessantes deveriam ser o cavaleiros da Idade Mdia quando comparados aos homens da atualidade. Todas aquelas histrias sobre cavalheirismo e confronto com drages, de heris que usavam as cores de suas damas em torneios, de romantismo e cortesia ao redor da corte. Rei Artur, Gui-nevere e... Lancelot.
	Capriche na espada, est bem?  sugeriu a menina.
	Claro, querida  concordou Liwy, sem prestar ateno, vida por continuar sonhando acordada.
	 que vou cobrar ingressos das crianas para lhes mostrar uma arma que j foi usada para silenciar garotas tagarelas.
	Chelsie!  surpreendeu-se ela.  No pode fazer isso. Mesmo que a histria fosse verdadeira, voc no poderia cobrar nada dos convidados.
	Mas ns vamos dividir os lucros em setenta/trinta!  defendeu-se a garota.
	J disse...
	Sessenta/quarenta!
A voz ecoou de dentro da armadura, interrompendo-a e deixando-a paralisada. S havia uma explicao possvel. George havia vestido o traje para fazer uma piada.
Ela abriu o visor bem devagar, sem saber ao certo o que encontraria. Dentro, um par de olhos acinzentados a fitava de maneira intensa.
Olhos que jamais vira antes.
 Lorde William, milady. A seu dispor.

CAPITULO II


william precisava dar um crdito  dama, que no gritou nem desmaiou. Contudo, como a expresso dela servia de prenncio para as duas coisas, talvez no tivesse feito nada por no ter decidido pelo que optar.
Algo o intrigava demais: qual o papel dela no castelo? Observara-a junto do trabalhador e sabia que se tratava de uma verdadeira dama. Alm disso, apenas algum da nobreza poderia usar um perfume agradvel e extico como o que sentira emanar dela.
Ainda assim, precisava admitir que sentira muito bem a fora daqueles braos enquanto esfregavam sua armadura, medindo tambm o grau de habilidade com que o trabalho era feito. Apenas uma pessoa acostumada a servios pesados seria capaz de demonstrar tal tenacidade.
Pesando todas as referncias, continuava sem a menor pista de qual poderia ser a posio daquela linda dama.
Sua pressa em encontrar Edward cresceu ainda mais. Alm da disputa pela posse do castelo, tinha uma infinidade de perguntas a fazer. Para comear, queria saber o que as mulheres estavam fazendo com aqueles trajes que deixavam as pernas  mostra. E quanto  maneira de falar?
Por fim, quem poderia ser aquela mulher, que ousava encar-lo de forma direta e tomar o flego com impacincia, cerrando os punhos e os apoiando nos quadris? Alis, naqueles curvilneos quadris...
 O que pensa que est fazendo aqui no escritrio de meu av?
O tom de azul dos olhos dela podia ser o mesmo dos da pequenina, mas havia um brilho especial que o deixara anestesiado a ponto de ignorar aquela impertinncia. Mas que aquilo no se repetisse em pblico. Ningum se dirigia assim ao lorde do castelo.
	Contratei sua equipe de atores para o casamento de amanh. No para ficar perambulando dentro do castelo e tentando nos matar de susto. Ningum quer uma encenao do conde Drcula por aqui.
William j havia viajado por muitos lugares e desenvolvera uma grande facilidade de adaptao lingustica, mas no conseguia identificar aquele estranho sotaque.
	Quem  esse conde? Seria da linhagem dos Drako?
	E sua armadura  um verdadeiro desastre  prosseguiu a dama, empurrando o pano contra o peitoral de sua armadura, sem sequer conseguir faz-lo piscar. Volte para casa e limpe-a.
	Milady, estou em casa. Alm do mais, minha armadura me serve muito bem. Preciso encontrar Edward, meu irmo. Por acaso o viu em algum lugar?
Enquanto ela fechava o frasco de polidor, um sorriso se insinuou naqueles lbios perfeitos, mas algo a fez cont-lo. Pelo menos em parte.
	Isso foi timo. Poderia faz-lo amanh, diante dos convidados?
No apenas a voz dela era angelical, como tambm seu rosto era de uma beleza indescritvel.
	O qu, milady?
"Fit-la com tamanha intensidade at encant-la e lev-la para minha cama?", pensou ele, j se censurando.
	Isso. Agir como um cavaleiro andante de verdade.
	Mas eu sou um cavaleiro de verdade, milady. Irmo mais velho de Edward, para ser mais preciso. Caso no o tenha visto, talvez seu marido possa me informar do paradeiro dele, quem sabe?
O sorriso dela se pronunciou ainda mais, deixando-o ver em detalhes aqueles lbios provocantes e os dentes mais perfeitos e brancos que jamais vira antes.
	No sou casada.
"Oh, uma viva!", pensou William, aliviado, tentando ento prolongar a conversa:
	Seu modo de falar  bem pouco comum. Posso perguntar de onde voc ?
	Illinois.
	Esse lugar fica na Frana?
O riso dela foi espontneo e descontrado. S lhe era incompreensvel o porqu de tamanha satisfao e divertimento.
	Ir se sair muito bem amanh, se continuar a interpretar dessa maneira.
Os cabelos dela balanaram, despertando-lhe o desejo quase incontrolvel de toc-los.
	Illinois fica nos Estados Unidos  disse Chelsie, complementando:  da Amrica  ao v-lo confuso.
O que no adiantou nada. Contudo, demonstraria sua gratido pelo vo esforo de ambas por ser indulgente com relao ao comportamento delas.
Foi prazeroso ver a preocupao desaparecer da feio da bela dama, ao ouvi-la dizer:
	Voc sabe... descoberta por Cristvo Colombo em 1492.
	Oh  disse ele, comeando a compreender.  Isso explica tudo. Sa daqui nesse mesmo ano. No ouvi notcia alguma sobre as novas descobertas.
A garotinha, que assistia a tudo com ateno, arregalou os olhos.
	Quer dizer que estava aqui em 1492?
	Isso mesmo.
	No, ele no estava  protestou a me da menina.
 No acredite em uma s palavra dele. Venha filha, j  hora de ir para seu quarto.
Ao v-la tomar a pequenina pela mo, William deu um passo para o lado e bloqueou a passagem.
	Milady, um cavaleiro andante nunca mente.
	Chelsie, querida, ele est apenas praticando seu ato para o casamento, entendeu?
	At que o moo  bom, no  mame?
Ao sentir o olhar dela medi-lo de cima abaixo, uma onda de calor o dominou. Ento ouviu-a dizer:
	Muito bom.
O que s serviu para fazer sua pulsao acelerar.
	Obrigado, milady.
	Quero dizer, estava me referindo ao modo como faz seu papel. Qual  o seu nome?
	William Marsh, milady. Lorde deste castelo e de todas as terras que o cercam.
	William, por favor, minha filha tm apenas oito anos. No est acostumada com castelos, realeza e cavaleiros. Se pretende jurar que nunca mente, pelo menos diga a ela a verdade a respeito de estar interpretando seu papel, a fim de no confundi-la.
	Mas, milady, acabei de dizer a mais absoluta verdade.
	Certo, William...
	Lorde William  corrigiu ele.
	Est bem, lorde William. Eu deveria despedi-lo agora mesmo por estar no escritrio de meu av, mas seria um desperdcio de talento no deixar que aparea na festa de casamento amanh. Nesse caso, trate de se limpar.
Colocando o pano e o polidor de metais nas mos dele, ela se virou e saiu, levando a pequenina pela mo, sem prestar sequer a devida reverncia em sinal de respeito. Apenas o brilho daqueles olhos azuis lhe revelavam que no havia tanta fria em seu corao quando queria demonstrar.
Quem era ela afinal? E o que estava fazendo em seu castelo? 
William saiu  procura de Edward. Nascera e fora criado naquele lugar, ento conhecia o castelo como a palma de sua mo. Sabia de cada passagem secreta e cada esconderijo possvel, assim como todas as alas.
Pelo menos, conhecia o lugar como costumava ser...
Haviam surgido portas e corredores onde no existia nada antes. As paredes estavam mais brilhantes do que jamais as vira. Muitos dos pesados enfeites que adornavam o lugar estavam faltando.
Ento, de repente, encontrou-se em uma asa completa-mente nova, ao fundo do palcio, que no existia antes de sua partida.
Como era possvel? Ningum conseguiria construir algo to grandioso em apenas seis anos.
Eram mudanas demais. Sabia que sua me estaria mais velha e que seu pai poderia ter mesmo morrido, como diziam os boatos que ouvira. Estava preparado at para encontrar um Edward adulto e diferente. Mas queria voltar para casa e chegar ao mesmo castelo que deixara ao partir
Sem ter a menor ideia do que fazer e sem nenhum empregado  vista, s lhe restava voltar a rea de onde sara para procurar quela peculiar dama. Afinal, todos os outros haviam desaparecido.
	Tire os bichinhos de pelcia de debaixo da cama, Chelsie.
Ao ouvir aquela voz angelical outra vez, William se flagrou suspirando. Pelo visto, a dama reservava seu tom mais doce para lidar com a prpria filha.
	Milady...
Ao v-lo, ela cruzou os braos sobre o peito, encaixando-os sob os seios perfeitos, aparentemente inconsciente de quanto era provocante.
	Se pretende ficar perambulando por a,  melhor me chamar de Liwy e comear a se mostrar til  escutou-a dizer com firmeza.  Estou mesmo precisando de ajuda para pendurar os quadros na galeria.
Notando que o tom da dama era de um ultimato, julgou ser mais sbio ignorar o desrespeito ao qual estava sendo submetido, pelo menos at descobrir o que seu irmo havia feito a ele e ao castelo.
	Est bem.
Ao segui-la, sentiu-se recompensado por ter optado em ser tolerante, j que pde observar os trajes dela.
Embora a parte de cima daquela estranha roupa a cobrisse de maneira quase decente, a de baixo era uma afronta. Mas tambm uma verdadeira tentao.
Aquela pequena pea, que deixava as pernas de fora, era to justa que parecia uma segunda pele sobre o corpo de Liwy. Conforme andava, o tecido preto e brilhante que lhe envolvia desde a metade superior das coxas at a cintura lhe permitia ver a contrao de cada msculo que se esforava com o caminhar.
Alis, aquele balano... era provocante como algo que jamais vira antes. 
Estava to distrado que nem mesmo notou as mudanas nas salas pelas quais estava passando. Mas, quando chegaram  galeria, viu quase duas dzias de quadros a mais do que costumava haver ali. Alguns estavam pendurados, outros no cho, encostados s paredes.
A princpio, aquilo o deixou boquiaberto. Demorou at que conseguisse falar.
	Como ousa?
Ela se virou, sobressaltada, levando a mo ao peito e comeando a rir.
	Meu Deus! No estou acostumada com pessoas gritando a minha volta.
	O que fizeram aqui?
William caminhou pelo cho de pedra, encarando as faces daqueles impostores, com ar indignado. Aquela galeria s deveria conter imagens daqueles que tivessem sido lordes do castelo.
Alheia ao choque que o abalava, Liwy respondeu com ar orgulhoso.
	Acabamos de pintar o lugar ainda ontem. Assim que acabarmos de pendurar os quadros, a sala estar pronta.
Ele parou em frente aos retratos que reconhecia. Seu pai, sua me e seus ancestrais paternos. Disfarou bem um suspiro ao deslizar os dedos sobre as pinceladas que formavam a imagem de sua falecida esposa, retratada antes de a praga lhe tomar a vida. Havia tambm um quadro de Edward, que jamais vira antes. Estava mais velho do que quando o deixara, seis anos antes, mas um pouco mais jovem do que o vira naquela manh.
Ento sentiu que Liwy estava a seu lado. O perfume dela era to extico que o fez esquecer o que estava prestes a perguntar.
	Meu av cuida destes  disse ela.  Costuma mant-los limpos, mas todos os outros estavam uma lstima quando cheguei. Fiz o melhor que pude. S no entendo o que o leva a ter preferncia por alguns retratos e desprezo por outros. Talvez eu descubra a razo disso quando encontrar os registros corretos.
	Registros?
	Sim. Estou tentando encontrar minhas razes. Pelo que entendi, devo ter um ou dois primos em algum lugar do mundo, mas ainda no encontrei nada do que vim procurar.
Ao v-la se curvar para selecionar as telas, William foi presenteado com uma bela perspectiva daqueles quadris curvilneos. Boquiaberto, tudo o que conseguiu dizer foi:
Oh.
 E por isso que estou aqui. Fui criada sem ter contato com nenhum parente, exceto por meus pais. No me entenda mal, pois eles sempre foram timos, mas no quero que minhas crianas sejam submetidas ao que passei.
Confuso, ele recuperou a compostura ao v-la se virar.
Ento gesticulou para as outras telas.
Quem so todas essas pessoas?
Liwy arqueou uma sobrancelha, encarando-o como se ele estivesse fazendo uma pergunta sem sentido.
	Parentes?
	No meus!
Ao ouvi-lo, ela riu de forma descontrada.
 Bem, ningum esperaria que fossem, lorde William, mas se puder guardar esse entusiasmo para amanh, ter minha eterna gratido. Nesse meio tempo, poderia subir na escada? Vou lhe passando as telas.
Ele no aceitaria pendurar retratos de impostores em suas paredes. Foi fcil se aproximar dela com muita rapidez, segur-la pelos braos e coloc-la contra a parede. Aquilo era brincadeira de criana para um cavaleiro andante como ele, mas foi preciso muito cuidado para no ferir aquela pele macia.
Liwy se surpreendeu com a agilidade de William. Sempre pensara que um homem de armadura teria seus movimentos muito limitados. Pelo menos essa foi a desculpa que deu a si mesma para ficar parada, encarando-o. No poderia ser por causa do brilho intenso daqueles olhos acinzentados, do rosto msculo e dos cabelos negros e brilhantes dele.
Sem dvida, as mulheres do passado deveriam ter um bom leque de opes  escolha, se todos os cavaleiros fossem to altos, geis e agradveis de se olhar quanto aquela bela rplica que tinha diante de si.
	Devo lembr-lo de que sua armadura no protege tudo...
	Quero que me explique isso  William olhou para os retratos e para as roupas dela.  Tudo.
	Se no me soltar, ter outro tipo de explicao, isso sim.
No fosse pelo medo de machucar o joelho no metal, j teria mostrado do que estava falando.
	Caso eu a solte, promete responder minhas perguntas?
	Ei! H algum a?  gritou Liwy, na esperana de George ou algum de seus homens ainda estarem l, embora o expediente tivesse acabado.
Contudo, uma luva de metal surgiu sobre sua boca, impedindo-a de repetir o ruidoso apelo. Aps muitos resmungos e protestos, ele abaixou a mo. Logo em seguida a soltou.
	Por Deus, onde h um cavaleiro de verdade quando se precisa de um?
	Estou bem na sua frente. Quando precisar de meus prstimos, ficarei honrado em servi-la.
	Amanh.
William olhou por sobre o ombro e arqueou uma sobrancelha antes de voltar a encar-la.
	Prev algum tipo de perigo ao raiar do sol?
Um incontrolvel surto de riso brotou no interior dela. Era compensador que, sem querer, tivesse contratado um ator to bom. Com certeza, seria a alma da festa.
	Prevejo apenas um casamento s onze horas e uma recepo, logo em seguida.
Demiti-lo por insolncia j estava alm de questo: tratava-se de um achado muito raro para ser desperdiado. Sua habilidade como anfitri seria assunto em toda a regio. Lo ficaria encantado com o "clima". Uma vez que oferecera o prprio castelo em garantia ao pedir um emprstimo particular a ele, no poderia deixar que a pousada falhasse. A propaganda que aquele evento representava seria fundamental.
Por isso, precisava achar uma forma de entreter William.
Bem, sei que precisa achar seu irmo. Por que no fica aqui pendurando os quadros enquanto eu o procuro para voc?
Concluiu com um belo sorriso, mas teve de se conter para no parecer uma colegial impressionada com o atleta campeo da escola.
Esquea-os.
Liwy avaliou a sala com um olhar, observando os quadros por pendurar.
	No posso.
	Quero que responda minhas perguntas enquanto procuramos juntos por meu irmo.
Mas assim no farei o trabalho que me aguarda.
Depois de olhar para os quadros com ar de desdm, ele fitou o ambiente em geral.
	Bom. Assim no derrubar mais nenhuma parede.
	O que quer dizer com isso?
	Que est arruinando o castelo.
Observando aquela sala era possvel avaliar tudo o que j havia conseguido fazer: pintara as paredes, recuperara as portas e os adornos, polira os metais, lustrara as peas de madeira, limpara tudo o que encontrara pela frente, inclusive os quadros enormes, com retratos de pessoas que jamais vira antes.
	Mas acabar sendo uma tima pousada. Turistas viro para o Castelo Marsh e dormiro em legtimas camas antigas, alm...
	No h o que discutir. O castelo  meu.
	Oua, esse seu ato ser perfeito amanh, mas  melhor no comear a acreditar em si mesmo. Estamos na propriedade de meu av.
	O lugar  meu, e lutarei com qualquer um que diga o contrrio.
Liwy ergueu os braos.
	Certo, ento est bem. Eu desisto. No tenho tempo a perder, tentando entret-lo. Espero que volte amanh e que continue a fazer seu papel de cavaleiro andante com a mesma
perfeio. Mas se no vai me ajudar agora, ter de sair.
	Devo procurar por meu irmo.
A ltima coisa de que precisava era de um encontro acidental entre ele e seu av, que vivia em um mundo de fantasias s dele. Se William estava ansioso por travar uma batalha, o que parecia ser verdade, o velho poderia se ver obrigado a aceitar o desafio.
Espada contra revlver do velho oeste. Qual arma sairia vencedora? Mas que dupla...
J sei  gritou Chelsie, aproximando-se pelo corredor.  Podemos fazer um torneio!
Ao ouvir sua filha, ela franziu o cenho.
	Seu quarto est arrumado, mocinha?
	Mas, me, isso ser perfeito  disse a pequenina, andando to depressa quanto falava.  Ele  um cavaleiro andante e entende de torneios. Voc precisa de dinheiro. Eu vendo os ingressos. Podemos dividir os lucros com ele em setenta/trinta com ele. Bem, vou escrever um contrato.
Liwy apontou para William, dizendo:
	Volte para a rea de acampamento dos trabalhadores e trate de limpar sua armadura  voltou-se ento para a menina  e voc, v j limpar seu quarto. No quero ouvir mais nenhuma palavra a respeito de torneios. J tenho muito com o que me preocupar.
	Mas, mame...
	Ora, milady...
Foi difcil manter uma expresso sria diante do ar de inocncia de ambos. Aquela dupla merecia um prmio da academia de cinema.
	Quero que ambos se comportem de maneira adequada amanh.
	Ah, me...
	Nem mais uma palavra. Vamos, vou lev-la para seu quarto.
Enquanto conduzia a filha pela mo, ela no viu Chelsie piscar o olho na direo dele, assim como no percebeu o modo como William assentiu, balanando a cabea afirmativamente.

CAPITULO III

Em menos de uma hora, William teve certeza f de que a nuvem escura que o envolvera naquela manh era alguma maldio lanada por seu irmo, Edward. O que mais poderia explicar o que estava vendo diante de si?
Um cavaleiro grande como ele, invencvel em todas as batalhas que lutou, protetor de reis e de reinos, sentia-se a ponto de temer fechar os olhos para dormir, pois estava certo de que no acordaria na manh seguinte.
Foi muito fcil achar o acampamento citado por Liwy. O denso cordo de barracas, algumas redondas, outras angulosas, estava disposto em circulo. As cores eram vivas demais e chamariam a ateno durante o dia, assim como uma tocha acesa na escurido. Ainda assim, nenhum inimigo apareceu para atorment-los,
O cavaleiros ali acampados nem mesmo haviam colocado guardas no permetro. William caminhou at o meio deles sem que lhe fosse imposto nenhum obstculo. Para quem estava achando fraca a segurana interna do castelo, aquilo era um afronta. Em vez de ficar alerta, aqueles homens apenas se acomodavam sentados sobre rvores cadas e cadeiras improvisadas ao redor de uma fogueira enorme acesa ao centro. Havia chamas suficientes para queimar muitos prisioneiros, mas no parecia haver ningum aprisionado ali.
Eles apenas contaram histrias e conversaram sobre as mais estranhas aventuras, at altas horas da madrugada. Fechando os olhos por um instante, ouviu com alvio as vozes graves e a risada daqueles soldados. Aquilo lhe era familiar.
Mas quando voltou a observar a paisagem a sua volta, teve certeza de que nada era como deveria ser. As barracas, cadeiras e roupas no lhe eram familiares. E o mais impressionante de tudo era que aqueles homens tinham o poder de acender fogo com as mos.
	Voc tem fogo, a?
Surgiu um rapaz de cabelos avermelhados a sua frente, quase to alto quanto ele prprio, o que era raro. Estava acostumado a ver o alto da cabea de todos abaixo da linha de seus olhos. O jovem segurava uma caixinha colorida nas mos, e parecia ser amigvel.
	Fogo?
	Ah, achei  respondeu o ruivo, oferecendo o contedo da caixinha ao retirar um pequeno basto brilhante de uma espcie de bolso em sua veste.  Quer um?
William escolheu um dos pequenos objetos cilndricos que lhe foram oferecidos, mas se assustou e recuou quando aquele desconhecido esfregou o dedo no basto e comeou a soltar chamas da prpria mo, aproximando a pequena labareda para queimar o objeto que acabara de lhe dar.
	Oh, est tentando largar, no ? Sim, sei como . Tambm estou. Meu nome  Tom  disse ele, olhando para o pulso, onde um medalho soltou um brilho esverdeado em meio  escurido.  Na verdade, no deveria acender outro por mais uma hora, mas sabe como   o sorriso dele parecia denunciar uma conspirao , minha esposa no est olhando...
Impressionado, William segurou o pulso do rapaz, tendo o cuidado de no tocar o medalho brilhante para no se queimar.
	O que  isso?
	Ei, onde voc andou fazendo musculao? Pela pegada de brao. Sei que parece original, mas  apenas uma imitao bem-feita. Quem diria no?
	Qual a funo desta... coisa?
Tom o encarou com o mesmo ar confuso que Liwy demonstrava em alguns momentos, diante de suas perguntas, parecendo no entender do que se tratava. De repente, o homem sorriu.
	Oh, j sei  falou o ruivo, soltando uma risada bem-humorada e dando um tapinha no ombro da armadura de William.  Por Deus, tire essa armadura e descanse um pouco, amigo. Estamos de folga at amanh cedo.
Frustrado por no obter resposta alguma, s lhe restou caminhar pelo acampamento e ouvir a msica, embora no houvesse instrumento nenhum  vista. Sentiu o aroma dos alimentos sendo preparados e ficou salivando, mesmo sem identificar o que poderia ser. Viu carruagens que tinham portas, janelas e rodas, mas no havia lugar algum onde pudesse amarrar os cavalos.
Estava claro que se tratava de material estrangeiro, mas no lhe era possvel identificar de que pas havia sado aquilo tudo.
Desde que aquela nvoa o envolvera de manh, tudo mudara: trajes, modo de falar, alimentos, carruagens, paredes do castelo e at mesmo, por mais inacreditvel que fosse, a rea que circundava a propriedade.
Nenhuma floresta poderia ser to devastada em apenas seis anos. E se lembrava de que, ao chegar ali pela manh, tudo lhe pareceu normal.
Era um mistrio.
Sentando-se em uma longa tora prxima ao fogo, ficou a uma distncia segura dos homens: ningum o envolveria na conversa, mas era possvel ouvir tudo o que diziam. Os outros pareceram se acostumar com sua presena ali e, algum tempo depois, entregaram-lhe uma caneca com a mais deliciosa bebida quente que j provara at ento.
Ofereceram-lhe outro daqueles cilindros de incandescer, mas daquela vez lhe passaram o basto mgico, que incendiava na mo, sem queimar. Aps observar com ateno como os outros homens fizeram, William repetiu aquela magia. E deu certo!
Jamais aprendera a agir como um ladro, mas aps seis anos de batalhas em campo, aprendera que precisava se adaptar a situaes novas o mais depressa possvel. Com muita discrio, deslizou o pequeno basto para dentro de seu colete.
J era muito tarde quando um rudo agudo se fez ouvir. Parecia um pssaro, mas estava prximo demais e o canto era diferente de tudo o que ouvira.
 O telefone de algum est tocando  murmuraram alguns dos homens ao redor do fogo.
	Quem deixou aquele celular sobre o toco?  indagou o que estava mais prximo.
	Oh, fui eu  respondeu Tom, aproximando-se e se dirigindo a William.  Ei, passe-o para mim, certo?
Sem saber do que se tratava, ele ficou olhando para o contedo da caneca, fingindo no estar prestando ateno.
	Por favor  insistiu o ruivo  o telefone que est sobre o tronco, atrs de voc.
	Isso?  indagou ele, seguindo a direo indicada.
	, amigo, passe-o para c.
Fazendo conforme lhe foi pedido, observou o rapaz levar a pequena caixinha ao ouvido e dizer:
	Claro. Vou ver se o encontro. Espere um pouco, Ento o objeto foi colocado no tronco, ao lado da perna de William.
Aps olhar ao redor e se certificar de que ningum prestava ateno, agradeceu o fato de aqueles homens no terem o menor senso de preocupao para com desconhecidos e estendeu a mo na direo do objeto.
Chegou a hesitar, imaginando se aquilo tambm soltaria fogo, como o basto mgico que, aps algum tempo, descobriu chamar-se "isqueiro".
Criando coragem, pegou a caixa com cautela, pronto para solt-la a qualquer instante, e a olhou por todos os lados. Observou os furinhos e as luzes. Parecia estranho, pois no havia calor na caixa, e o brilho que dela saa era intenso e colorido. Temeroso, imitou o gesto de Tom e a levou ao ouvido.
	Al? Tommy? J voltou?
Levantando-se em um sobressalto, William jogou longe aquela coisa demonaca, que caiu sobre a grama com um estampido seco. Que Deus o ajudasse, mas ele tinha ouvido a voz de um homem dentro daquela coisinha amaldioada. Com a mo da empunhadura da espada, ele se perguntou como um cavaleiro poderia enfrentar um inimigo to pequeno...
Liwy sentiu um aperto no peito quando ouviu uma trombeta soar ao amanhecer. Um dos atores se prontificara a dar um toque de alvorada medieval. Aquilo a deixou feliz. Trabalhara muito para a filha de Lo ter uma festa perfeita e aquele era o grande dia. Ignorando o prenncio de um enjoo matinal, levantou-se, tomou um banho e se arrumou. Colocou um vestido tpico da poca medieval, que o grupo de atores contratados lhe emprestara, e foi encontrar seu av e Chelsie na cozinha.
Para sua tristeza, o velho estava usando sua roupa de cowboy do velho oeste.
	Vov, voc prometeu.
	O qu?  indagou ele, em tom inocente.
	Nada de chapu de aba larga, botas com esporas que fazem barulho ao andar e muito menos esse velho revlver de seis tiros.
Ao falar, lembrou-se de que William tambm usava esporas em sua armadura. E eram de ouro.
	Hoje  o dia.
	Voc sabe que . Suba e se troque.
	Ainda tenho horas para isso.
	Por favor.
	Tudo a seu tempo, Liwy. No pretendo assustar Silver antes do necessrio com aquelas roupas esquisitas que quer que eu use hoje. Depois eu me troco.
	Mas, trata-se apenas de um cavalo!
Ao ouvir o apelo dela, o velho lhe apertou a bochecha com os dedos e saiu da cozinha, dizendo.
	J disse que me troco mais tarde. Prometo.
Olhando para a passagem vazia, ela murmurou, para ningum em particular.
	Oh, o que vou fazer com ele?
Sem desviar os olhos de seu bloco de notas, Chelsie respondeu:
	Tente ver isso de outra maneira: pelo menos ele no comeou a usar mscara nem est me chamando de Tonto.
	Era s o que faltava...
A pequenina levou a ponta traseira do lpis aos lbios, com ar pensativo.
	Acha que lorde William vir cedo hoje?
	No sei  respondeu Liwy, sentando-se ao lado da filha, que j estava com seu vestido medieval.  Ei, o que est escrevendo dessa vez?
	Uma histria sobre um cavaleiro andante e uma dama. A que comecei ontem. Mas preciso parar um pouco para ir falar com lorde William.
	O nome dele  apenas William. Ele no  lorde coisssima nenhuma. Para que precisa dele?
	Para fazer uns acertos.
	Como assim, acerto?
	Fizemos um acordo comercial.
	Chelsie! J lhe disse que no pode cobrar nada das crianas dos convidados. Alm do mais, todos os cavaleiros tero espadas.
	Mas a dele j cortou...
Liwy cobriu as orelhas.
	No!
	E muita violncia para seu estmago?  indagou a menina, sorrindo, ao ver a me descobrir os ouvidos.
	Acho que sim.
Ela achava que William no se interessaria por uma me solteira, grvida e com uma hipoteca por vencer. Mas, caso estivesse enganada, no gostaria de associ-lo  algo violento.
Se bem que no era difcil imagin-lo enfrentando um drago, com a espada em punho, para defend-la do sopro de chamas do monstro.
No era nada difcil...
O aroma familiar de fumaa de madeira despertou William. Era possvel ouvir os cavalos se movendo. Os homens bocejavam ao redor, reclamando que ainda era cedo, embora o sol que lhe aquecesse o rosto j estivesse muito acima do horizonte, caminhando para o centro do cu.
Por algum tempo, antes de abrir os olhos, achou que ainda estava a caminho do castelo, e que fora atormentado por um terrvel pesadelo.
Exceto,  claro, a parte referente a Liwy, a mulher angelical das pernas nuas, que mesmo no se vestindo como uma dama, agia como tal. Por mais que tivesse tentado, no conseguira lev-la para cama, nem no melhor momento de seu sonho.
	William.
Atrapalhado pela armadura que despira, rolou para o lado e se voltou na direo daquela voz familiar.
Era um velho de cabelos grisalhos, montado em um cavalo branco, trajando a veste mais estranha que j vira at ento e usando algo que deveria ser algum tipo de arma, pendurada  cintura.
Apoiando-se sobre o ombro e deixando escorregar o cobertor que pegara emprestado para passar a noite, William indagou:
	Como sabe meu nome?
	Volte para o lugar de onde veio  ordenou o homem.
"Ento, o pesadelo fora real", pensou ele.
Mas aquilo significava que Liwy tambm o era. A nica luz em meio quela treva que o atormentava.
	Como ?
	Voc no pertence a isso aqui. A propriedade  minha.
Muitos cavaleiros, todos armados, passaram galopando por eles, levantando uma densa nuvem de poeira. Quando foi possvel voltar a enxergar outra vez, o estranho velho havia desaparecido e, com ele, suas chances de obter algumas respostas.
Ento se lembrou da nica pessoa que no demonstrara ter medo dele nem o olhara como se no o compreendesse: Chelsie.
Em meio a um mundo enlouquecido, talvez s lhe restasse agir de maneira insana. Se concordasse com os esquemas dela de fazer dinheiro, conseguiria qualquer resposta.
Trombetas ecoaram pelo vale onde ficava o acampamento. Vestindo mais do que depressa a armadura, seguiu para o castelo, decidido a falar com a menina.
As trombetas, faixas, algumas carruagens e uma multido de pessoas alinhadas  beira da estrada eram elementos fceis de se identificar. A festividade tinha um brilho digno da realeza. Aquilo tudo parecia tornar as imediaes menos confusas, mas s at William comear a prestar ateno nas armaduras dos outros cavaleiros. Maior parte delas, principalmente as cotas de malha, os acabamentos e as blindagens, eram muito antigas e ultrapassadas. Em compensao, havia algumas peas que jamais vira antes. O mesmo acontecia entre o pblico.
	Chelsie  chamou ele, em voz alta, em meio a multido.
Como na tarde anterior, ningum tomou cincia de sua presena. Ningum se curvou em cortesia nem o cumprimentou, o que era desconcertante para o lorde do castelo. 
Uma mulher o empurrou de lado para ficar na primeira fila da multido, trazendo suas crianas consigo.
	No acha que deveria estar em seu cavalo, acompanhando os outros cavaleiros?
Ela nem mesmo acrescentou um "milorde", ao final da frase, para demonstrar respeito.
	Quem  voc para me dirigir a palavra desta maneira?
	Oh, crianas, esperem um minuto  disse ela, colocando o garoto menor no colo de William, a maior na frente dele e retirando uma pequena caixa preta de sua bolsa.  Sei que no est aqui para isso, mas...  a mulher sorriu e deu de ombros, levando a caixa at o rosto  diga "X"... Otimo.
A caixa voltou para seu esconderijo e nenhuma explicao foi dada a William a respeito do que acontecera.
	Mas que diabos...
	No ficou bravo por isso ficou?
	O que voc fez?  indagou ele, apontando para o lugar onde ela escondera a pequena caixinha preta.
Diferente da outra que enfrentara na noite anterior, aquela no disse nada.
	Como assim?
	A caixa, mulher! Qual o propsito dela?
	Oh, est falando da cmara?
	 algum tipo de magia?
Ela pareceu ficar confusa, assim como Tom e Liwy. Ento comeou a rir.
	Claro. Magia. Acho que deveria estar entretendo os convidados, e no uma governanta como eu.
William a mediu dos ps a cabea.
	Voc no  a sra. Purdy.
	Meu nome  Sarah.
	Mas, o que aconteceu com a sra. Purdy?
	Quem? No sei. Moro aqui desde 1988 e nunca conheci algum chamado assim. Tem certeza de que o nome  esse mesmo?
O garoto mais velho a puxou pela mo e a pergunta foi feita quando j estava se afastando.
Ele coou a testa, sem ter certeza de nada. Ou a mulher tinha um problema com datas ou seus ouvidos o estavam traindo.
	Acho que deveria mesmo estar montado  gritou Sarah, j sumindo em meio ao povo.  H um cavalo logo ali. Veja!
Seguindo a direo apontada, avistou o cavalo branco do velho, cuja rdea estava presa a um galho,  sombra de uma rvore.
Aquela sela era muito estranha. Jamais vira couro ser moldado daquela maneira. Mesmo assim, seguiu naquela direo.
	Bem, l vou eu.
Do alto da murada do castelo, Liwy observava, tensa, o progresso da procisso de carruagens e cavaleiros que seguia pelo vilarejo. Atendendo ao pedido de Lo as instrues dos atores contratados para se apresentar com as armaduras, a maioria das pessoas estava trajando roupas medievais. Era claro que haviam trajes de sculos diferentes, todos misturados, mas quem se importaria?
De repente, Chelsie, que estava a seu lado, gritou:
	Olhe l! O cavalo do vov.
	Ele se trocou? Se estiver de cowboy, vai estragar o to requisitado "clima" que Lo exigiu.
	No. A menos que tenha lhe dado uma armadura velha e suja para vestir.
	Velha e suja?
"Oh, Deus!"
	Ei, acho que  lorde William  sugeriu a pequenina, com meio segundo de atraso.
	Montado em Silver? Onde?
O mero fato de algum tocar aquele animal era considerado uma ofensa.
Aps encontr-lo com o binculo, Liwy foi brindada com uma viso ampliada daqueles ombros fortes e daquele corpo imenso balanando com suavidade enquanto o animal avanava entre a pequena multido local.
Era mesmo uma imagem admirvel. Jamais imaginara quo bem ele ficaria sobre um cavalo branco. Quando o viu de frente, fitou-lhe os cabelos negros, o rosto msculo e os olhos acinzentados, j que seu elmo estava seguro em seu brao.
Sem perceber, soltou um suspiro e murmurou:
	Oh, meu Deus.
Guinevere teria jogado fora o rei Arthur e Lancelot por aquele cavaleiro andante.
	O que foi? Deixe-me ver!  exigiu a menina.
William conduzia o cavalo com habilidade por entre as pessoas.
	O vov vai atirar nele por isso  disse Liwy, vendo-o ento seguir depressa at a ponte levadia e, em vez de entrar no ptio ou sair do caminho, seguiu de encontro  carruagem nupcial.  Essa no! Se ele estragar a festa, eu mesmo atiro nele!
	Mame, deixe-me ver tambm.
Entregando o binculo para a filha, andou depressa rumo a escada, dizendo:
	Fique de olho para ver se o vov aparece. No deixe que ele veja William montado em Silver. Distraia-o e o afaste daqui.
	Como?
	Ora. Pense em algo.
	J sei!  festejou a menina, arqueando as sobrancelhas.  Direi que vi Jesse James do outro lado do castelo. Esse tipo de coisa sempre funciona.
Liwy parou e se virou, antes de sumir de vista. Balanando a cabea negativamente, sentiu-se em meio a um hospcio ao concluir que aquela ideia poderia funcionar.
	Hum... Acho que serve.
Tropeando no prprio vestido, de estilo medieval, avanou rumo  ponte o mais depressa que pde. Depois de muitos empurres, chegou aborda do corredor formado pelas pessoas, a tempo de ouvir as palavras de William.
	Procuro pela menina. Ela est na carruagem?
Lo respondeu de seu cavalo, em tom bem-humorado.
	Apenas a minha pequena menina.
	Traga-a para fora. Desejo falar com ela agora mesmo.
Um riso generalizado ecoou na multido, deixando Liwy sem saber se interferia ou se pagava um bnus a ele pela performance.
	No  respondeu Lo.  Agora, seja um bom homem e saia da frente.
Embora tivesse abaixado a cabea para ver no que acabara de pisar, ela sabia que aquele som de metal deslizando s poderia significar uma coisa: William sacara a espada!
	Como lorde do Castelo Marsh e da terra por onde passa sua comitiva, exijo falar com a garota agora mesmo. Ou ser voc quem sofrer as consequncias.
Conseguindo avanar na direo dele aps passar pelo cordo de isolamento que haviam feito com cordas, ela tentou salvar a situao sem deixar que as manias dele estragassem a festa de casamento da filha de seu credor.
William  disse Liwy, sem receber nem sequer um olhar ao se aproximar mais, revirando ento os olhos e se submetendo ao jogo dele.  Certo... Oh, meu nobre lorde William!
	Fique de lado, milady  disse ele, fazendo o cavalo avanar enquanto brandia a espada na direo de Lo. O mesmo Lo que desejava apenas uma festa inesquecvel para sua filha nica, e que tinha condies de fechar a pousada do Castelo Marsh antes mesmo da inaugurao.
Ela considerou a possibilidade de se colocar em frente ao cavalo e forjar um desmaio, como uma autntica donzela medieval.

CAPITULO IV

Adespeito de ser estranha, a sela era muito confortvel. William tinha total controle sobre o garanho branco que tomara emprestado. Com habilidade, ergueu a espada contra aquele insubordinado que ousara desafi-lo em pblico, em seu prprio castelo.
Seria aquele o pai de Chelsie? Por que a chamara de "minha pequena menina"? Liwy dissera que no tinha marido.
Era uma situao confusa.
De barba e cabelos negros, tinha os traos dos membros do cl dos malditos Leopold, que haviam tentado conquistar o Castelo Marsh uma ou duas vezes.
Se a estranha magia negra de Edward pde mand-lo para aquele lugar, teria feito o mesmo com outros? Pessoas que no viviam pelo cdigo?
	Falarei com a jovem agora mesmo, ou sua cabea estar pendurada na torre leste ao pr-do-sol.
	Lorde William!
Embora pretendesse lanar apenas um olhar na direo dela, foi impossvel ser rpido. Liwy estava encantadora naquela manh. Os cabelos dourados, soltos e cacheados, estavam adornados com uma faixa de seda azul, da mesma cor daqueles lindos olhos.
	Fique de lado, milady.
Era difcil saber o que significava a expresso no rosto dela.
	Tire esse cavalo do meio da passagem.
O traje dela era bastante discreto, mas quando a viu levar os punhos cerrados aos quadris, no apenas se lembrou daquela cintura fina e das pernas bem torneadas, como ficou impressionado com a maneira que aquele vestido enfatizava os seios rijos e perfeitos de Liwy.
Enquanto a admirava, esqueceu-se de o que pretendia fazer ali.
	Saia j do meu cavalo, seu safado!
William se virou de repente, sobre a sela, localizando o velho que o visitara naquela manh, no acampamento.
	Contenha sua lngua, ou serei obrigado a cort-la fora, ancio.
No obedecendo, o homem retirou da cintura o pequeno objeto que parecia uma arma.
	Aqui nessas bandas, costumamos linchar ladres de cavalos.
	Pare, vov  disse Liwy, posicionando-se entre os dois e voltando a encar-lo.  Saia do cavalo dele.
Foi ento que um rudo estrondoso se fez ouvir. Pareceu ter sado do objeto na mo do velho. O garanho, que j estava assustado, pinoteou at derrubar o cavaleiro ao cho.
Ao cair na frente dela, sua armadura fez um som espatifado, ao bater nas pedrinhas do cho. S no foi mais humilhante, um guerreiro experiente como ele cair de sua montaria, graas  expresso preocupada que viu naquele rosto. Mesmo que tenha logo sido disfarada e substituda por um sorriso de pouco-caso.
	Est um pouco sem prtica, no , sr. cavaleiro?
Liwy quase perguntou se William estava bem, mas bastou fitar aqueles olhos acinzentados para saber que no havia problema algum. Contudo, sabia que a armadura era pesada e no sabia se ele poderia sair dali sozinho.
	Consegue se levantar, no ?
	Bem...
	Caso contrrio, posso pedir que um ou dois cavaleiros o empurrem de lado, para fora do caminho.
Por mais que tentasse no sorrir quando ele arregalou os olhos de maneira indignada, foi impossvel evitar.
	Milady, ficarei feliz em atend-la. Peo apenas que, primeiro, presenteie-me com um beijo.
Como estava curvada sobre ele, precisou se levantar e dar um passo para trs, porque se sentiu tentada a fazer o que lhe fora pedido.
	No.
	 apenas uma pequena ddiva para ajudar a me restabelecer.
	Vou pegar a corda na sela de Silver e "restabelec-lo" de volta ao meio da multido.
A mo enluvada dele pousou sobre o peitoral da armadura.
	Oh, milady, assim voc me magoa.
	No me provoque  respondeu Liwy, se esforando sem sucesso para no rir.
"Seriam todos os cavaleiros andantes to impulsivos e irresistveis?", pensou.
No mesmo instante em que se fez aquela pergunta, corrigiu-se mentalmente: "Ser que, no passado, todos os cavaleiros andantes foram assim?".
E sua me estava preocupada com a imaginao de Chelsie.
Ao redor de ambos, as pessoas falavam em favor dele.
	Beije-o, moa!
	Peque-a nos braos, parceiro!
	Ei, voc  um lorde, no ? Levante-se e faa o que deve!
William ergueu o elmo e o entregou a Liwy, que o pegou, pensando em ajud-lo. Distrada com a pea de metal, tornou-se um alvo fcil.
Assim que ficou de p, ele se aproximou, encantando-a com seu olhar msculo, at que a segurou pelos ombros e se curvou. Jamais ficara diante de um homem to grande e charmoso. Aqueles lbios eram ainda mais quentes do que imaginara. O cho pareceu desaparecer sob seus ps. Atordoada, Liwy descobriu que no podia se mover... e que nem mesmo desejava faz-lo.
Aquilo sim era calor humano.
	Nossa!  sussurrou ela.
	A seu dispor, milady.
Vendo-o sorrir com ar malicioso, admirou-lhe a agilidade enquanto o observava se afastar, j com o elmo na mo, saltando na garupa da ltima carruagem da fila e acenando com tranquilidade.
Se tivesse encontrado um homem que beijasse daquela maneira quatro meses antes, no conseguiria resistir  tentao: teria engravidado da maneira convencional. 
O casamento aconteceu na capela da famlia. Enquanto no encontrava Chelsie, William usou seu tempo para observar, como fazia todo bom cavaleiro. A aparncia dos homens e das damas presentes o entretiveram por algum tempo.
A conversao seguiu o mesmo padro de sempre: trabalho, crianas e comrcio. S que, depois de algum tempo, ficou claro que o assunto comercial parecia diferente demais. No se falava de especiarias, acar espanhol ou vinho francs.
O incidente com o velho e o tal "revlver", que parecia ser o nome que haviam dado quela estranha e pequena pistola, foi comentado vrias vezes.
S o que o surpreendeu de verdade foi ouvir elogios quando a atitude de Liwy, em tentar conservar o castelo de maneira funcional, reformando-o e tornando-o lucrativo.
"Blasfmia!", pensou indignado. S resistiu ao impulso de expulsar todos dali, exceto ela, porque se o fizesse, no teria oportunidade de aprender nada sobre aquele mundo novo.
Ou seria apenas um outro lugar, bastante semelhante? Segundo o que ouvira de Sarah, poderia ser uma nova era. No. Nenhuma daquelas teorias lhe parecia aceitvel. Contudo, magia negra nunca fazia sentido.
Ao convite da anfitri, os convidados se reuniram no salo principal, para a ceia de casamento. Era interessante como as pessoas batiam com a mo em sua armadura ao se aproximar. Quando viu Chelsie se aproximar com um bando de crianas, sabia que seria submetido a outra sesso de cutuces.
	Ol, lorde William.
	At que enfim. Procurei-a por todos os lugares.
	Estes so meus amigos. Eles querem ver sua espada.
	Mande-os at seus lugares por um momento. Precisamos conversar em particular.
	Ser apenas por um instante.
	Mas...
	Prometi a eles que seria agora. Lembre-se de que havia dito que lhes contaria uma histria a respeito da espada.
	Est bem. O que quer que eu faa por seus amigos?
	Bem...
	Mas que seja rpido, pois temos muito a conversar.
Um garoto perguntou:
	Essa  a espada que voc usava?
William endireitou o corpo, colocando a mo de maneira orgulhosa sobre a empunhadura cravejada de jias de sua arma.
	Esta beleza viajou comigo por muitos pases. Serviu-me muito bem ao longo de incontveis batalhas.
Ao notar que estavam chamando a ateno de muitos adultos ao redor, Chelsie falou, em tom nervoso:
	Melhor deixar que eles toquem a espada agora, para que voltem logo a suas mesas.
	Ento ir se sentar comigo para conversarmos e responder todas minhas perguntas?
	Sim, claro  disse ela, apressando-o.
	Pois bem.
Ao sacar a espada, as crianas se afastaram. Quando se abaixou, com um joelho dobrado, estendeu o cabo ornamentado de sua arma na direo deles, apoiando a lmina de maneira segura sobre a perna. Com um sorriso, sugeriu que se aproximassem.
Mesmo estando sem prtica em lidar com os pequeninos, a ttica deu certo. Todos se aproximaram e tocaram as jias e ornamentos da empunhadura. Viu Chelsie ficar a seu lado e, mesmo sem sentir, soube que a mozinha dela estava sobre seu ombro.
	Voc seria um pai muito "bacana".
Ao ouvi-la dizer aquilo, em tom suave, ficou muito feliz. Embora a palavra lhe fosse desconhecida, sabia que era um elogio. A menina tinha a idade exata que sua prpria filha teria, se no tivesse sido levada pela praga.
	Chelsie Anne Ravenwood!
	Oh, no!
Liwy se aproximou como um relmpago e comeou a enviar as crianas de volta a suas mesas para junto dos pais e familiares, deixando para encarar sua filha por ltimo.
	Por acaso voc recebeu algum dinheiro daquelas crianas?
	Bem...
	Pois vai devolver cada centavo, ainda hoje.
	Mas e quanto a minhas despesas?
	Isso se chama "absorver o prejuzo", menina.
William ficou encantado com a expresso firme e carinhosa de Liwy e fez o possvel para permanecer neutro quando a garotinha lanou um olhar de pedido de socorro em sua direo.
	Me...
	J est na hora de comermos. Venha se sentar  mesa.
	Quero me sentar com lorde William.
	De jeito nenhum.
	Por favor, milady  interveio ele , preciso conversar com ela.
	Vocs dois no apenas tero de comer separados, como eu os probo de conversar um com o outro. Entendido?
	Mas, mame!
	Milady!
O sorriso dela o deixou desorientado, pois foi de uma candura suspeita.
	 apenas isso, meu caro. No lhe devemos nada. Com licena.
Ao observ-las se afastar, sentiu-se triste por aquela atitude desconfiada. Ele era um cavaleiro que vivia pelo cdigo. Jamais faria mal a uma criana.
E ainda precisava de respostas. Queria saber que mundo era aquele e se Edward tambm estava l. Precisava descobrir como o castelo fora parar nas mos do av de Liwy. Seria bom entender como um homem podia segurar aquele basto mgico e acender fogo com as pontas dos dedos, acender medalhes no pulso e fazer msica surgir no ar, sem instrumentos ou msicos.
Era melhor esquecer a pequena caixa falante. Ainda no se considerava pronto para aquilo...
Se no poderia obter tais informaes com a menina, talvez a prpria me o ajudasse. Naquela mesma noite. No quarto dela, se necessrio fosse.
Liwy acomodara a todos no grande saguo, tendo o cuidado de sorrir com simpatia e profissionalismo todo o tempo.
No pretendia deixar ningum ali com a impresso de que faltara algo na festa. A melhor propaganda para que houvessem outros eventos e tambm hspedes na pousada, seria justamente a indicao de pessoas ali presentes.
De seu ponto de vista, William continuou representando muito bem seu papel, como se fosse mesmo o lorde do castelo. Fez caretas, reclamou com os serviais, elogiou as bebidas e entreteve os diversos grupos de convidados. Como imaginara, a presena dele estava sendo um espetculo  parte.
Se comeasse a promover mais eventos tpicos, deveria contrat-lo em carter permanente.
A certa altura, percebeu que os convidados que compartilhavam de sua mesa comearam a sorrir em sua direo, no momento em que ele passava por ali. Concluiu que algo iria acontecer e que precisaria seguir o jogo dele.
	Milady?
Virando-se para encar-lo, Liwy sorriu com ar respeitoso.
	Sim, lorde William?
	Estive fora por alguns anos. A tradio mudou tanto assim, que o lorde j no beija suas convidadas antes da refeio?
Levantando-se, ela pensou em dar a ele um pouco do prprio remdio.
	Claro que no, milorde. No houveram tantas mudanas. Se bem que, agora, costuma-se esperar pelo final da festa para o beijo, mas podemos fazer a seu modo.
Ficando de p, sorriu de maneira tentadora. Virou o rosto para ele e sentiu aquela pele quente contra a sua, assim como as mos fortes que voltaram a lhe apertar os ombros. Foi nesse momento que tudo se tornou enevoado.
Liwy virou o rosto e tocou-lhe os lbios com os seus. Antes que pudesse se dar conta, estava nas pontas dos ps, para alcan-lo melhor. Seus dedos estavam acariciando os cabelos negros na nuca de William, como se aquilo fosse o movimento mais natural do mundo.
Quando tempo o beijo durou, era difcil saber. Poderia continuar para sempre, mas os aplausos dos convidados quebraram o encanto. Mais do que depressa, ela recolheu as mos e abaixou os ps.
Curvando-se em agradecimento, ele sorriu para todos e comeou a se afastar com tranquilidade. "Mas que nervos esse cavaleiro tem", pensou.
	Milorde?
	Sim?
	Pensei ter dito que era uma tradio que o lorde beijasse as convidadas antes da refeio. Ainda h mais de cem nesse saguo.
	Milady, se mais uma das convidadas beijar como voc, acredito que no terei foras para comer  respondeu William, com um brilho bem-humorado no olhar. 
Decidido a ir buscar taas de ouro para os noivos beberem vinho, William saiu do saguo acompanhado de um garom e de Tom, que o estava acompanhando para quase todos os lugares.
Aproveitando a ocasio para coletar informaes, comeou a perguntar, de maneira disfarada, a respeito de suas preocupaes. Mas precisava ser discreto.
	Voc  dessa regio, Tom?
	Sim. Morei aqui toda a vida.
	H vilarejos nas vizinhanas?
	Procurando por um pouco.de ao, no ? Bem, o maior de chama Newton.
"Isso! Ento  o mesmo lugar", pensou. "Bem, talvez".
	Talvez um pouco de ao e um pouco de descanso, meu rapaz. Mas voc  bastante jovem, no ? Em que ano nasceu?
	Nasci em 78. Tenho vinte anos.
	Em 1478?
	Essa foi tima, homem. Veja s, 1478. Isso me transformaria num viajante do tempo. No. Se eu pudesse faz-lo, iria voltar para o passado e ser um cavaleiro de verdade.
	Como eu?
	Sim, como v...  o ruivo parou e coou a cabea.  Oua, acho que devo avis-lo que o pai da noiva no est muito contente esta tarde.
	 mesmo?
	No ser nada bom para Liwy se voc o deixar irritado.
William no se perdoaria se a prejudicasse, por mais indireta que fosse a maneira.
	Nesse caso, levando as taas de ouro de minha me para os noivos, ele deve ficar mais feliz. Ah, aqui esto!
Nos quinze minutos de paz, em que William esteve fora do saguo na companhia de outro dos atores, Liwy pde ajeitar muitas situaes. Com o retorno dele, toda a ateno das pessoas voltou a focaliz-lo, deixando os noivos quase em segundo plano. Por sorte, a comida foi servida e no foi difcil coloc-lo em uma mesa onde havia um lugar vago e entret-lo com fartos alimentos.
Ao trmino da refeio, as mesas foram afastadas a fim de dar espao para a dana. Antes de comearem a primeira valsa, Lo a chamou para conversar.
	Aquele sujeito est arrasando o casamento de minha filha.
	Mas...
	No quero saber dele aqui. Mande-o embora. Lembre-se de que sua hipoteca est em minhas mos. Se a festa for estragada, sua pousada falir antes de abrir as portas. Fui claro?
	Sim  murmurou ela, contando at dez para no responder  altura.  Muito claro.
Ao voltar para a rea central do saguo, foi surpreendida pela mo de William em seu ombro. Fazendo uma mesura educada, ele a tirou para danar. Aquela seria uma maneira de conversar com ele e explicar com calma o motivo que a estava levando a demiti-lo.
Contudo, fitando aqueles olhos brilhantes, seria impossvel fazer o que precisava. No estava acostumada a demitir ningum, muito menos a ceder sob presso, mas Lo tinha a hipoteca do castelo como garantia do emprstimo que estava financiando as reformas.
Se ele decidisse executar a dvida antes do prazo, o castelo acabaria sendo dele. Liwy perderia tudo e deixaria seu av sem nada tambm.
Aquilo no poderia acontecer.
Mas estava sendo difcil criar coragem para dispens-lo.
Numa das trocas de par em meio ao saguo, ela acabou nos braos de seu prprio av, com quem pde conversar sobre o dilema que estava enfrentando.
Compreensivo, orientou-a a conduzir William para uma determinada porta, assim que possvel. Uma vez do lado de fora, ele mesmo se incumbiria de cuidar da dispensa do cavaleiro.
Na troca seguinte de casais, Liwy conseguiu voltar aos braos dele. Entretanto, quando o conduziu para fora, encontrou uma cena que no esperava.
Assim que passaram pela porta da sacada, a voz de seu av se fez ouvir:
 Agora!
Foi ento que quatro dos atores que interpretavam cavaleiros avanaram sobre William. Mesmo assim, foi preciso uma pancada na cabea, dada pelas costas, para venc-lo.
Horrorizada, viu-se obrigada a concordar com o plano maluco de seu av, que alegou que no poderiam correr o risco de ele fazer um escndalo ao ser demitido, estragando a festa.
Talvez fosse mesmo melhor deix-lo afastado at o final da festa, para depois conversarem com calma.

CAPITULO V

O labirinto parecia menor do que quando William era uma criana. Brincara ali muitas vezes, na companhia de seu irmo Edward. O passatempo predileto de ambos era trancar um ao outro nos calabouos para que vissem quem escaparia mais depressa. Embora nenhum prisioneiro tivesse conseguido sair dali, ambos sempre obtiveram sucesso.
Mas eles eram bem menores na poca.
Depois de passar uma noite com os homens no acampamento, conclura que estava em um mundo diferente. Contudo, pelo que ouvira de Sarah e Tom, comeara a considerar a possibilidade da tal "viagem no tempo". Era algo inacreditvel: o futuro!
Entretanto, a variedade de trajes que vira no casamento o estava confundindo. A moda no deveria ter mudado de maneira mais consistente?
Como acontecera, ele no fazia ideia. Teria avanado quinhentos anos no tempo? Se sim, a forma de voltar lhe era desconhecida. O melhor lugar para investigar era o escritrio de seu pai e no uma cela debaixo de uma torre.
Como no havia guardas, ningum o escutou afrouxar a pedra na parede. Seria preciso uma abertura muito maior do que jamais abrira antes, pois estava muito maior do que na ltima vez que dali escapara. Pretendia trabalhar sem parar at escapar, mesmo que no pudesse parar para dormir ou descansar at o dia amanhecer.
Estava escuro quando encontrou um objeto atrs da terceira pedra que cavou. Tateando, descobriu que era uma chave.
"Ora, Edward, voc trapaceava", pensou. "Era assim que conseguia sair daqui to depressa".
Chegando em silncio at a parte central do castelo, descobriu-se com um problema: o saguo e corredores que levavam s partes do castelo que precisava chegar estavam iluminadas. O que era pior, aquelas estranhas lamparinas no se apagavam com o sopro. Era preciso apag-las com a espada, mas havia algum tipo de magia naquilo que fazia a espada soltar fascas quando as quebrava. Era assustador como seu brao ardia e se agitava conforme as destrua.
Liwy poderia explicar aquelas coisas mais tarde. Naquele momento, estava arrependido de ter quebrado tantas lamparinas mgicas, pois deixara o escritrio to escuro que no podia enxergar nada. E no havia nenhum candeeiro normal por perto.
Como no havia nenhum guarda por perto, decidiu no apagar mais luzes. Seguiu apenas em direo ao quarto que observara ser o de Chelsie quando estava na galeria. Como no havia uma pajem para ela, seu quarto deveria ficar prximo ao de sua me.
Experimentou todas as portas nas proximidades e no encontrou o aposento que procurava. Quando seguiu para o ltimo dos quartos, descobriu-se sorrindo com ar incrdulo. Estaria Liwy ocupando o quarto que fora seu?
Sim, era isso mesmo.
No pde v-la de imediato, pois seus olhos no estavam acostumados a densa penumbra do ambiente, mas podia sentir o perfume e ouvir a respirao suave e lenta que lhe acompanhava o sono.
Foi se acostumando aos poucos  luminosidade da lua, que se espraiava pela janela. A cama ainda era a mesma que ele usava. Suas iniciais estavam gravadas na madeira.
Pde ento perceber o contorno daquele corpo maravilhoso sob o lenol. Concentrando-se, pde identificar os movimentos de sua respirao. Observou-a virar-se de lado e murmurar algo. Seria um crime acord-la para obter algumas respostas. Algumas horas no fariam diferena.
Pelo menos no aspecto intelectual.
Por outro lado, aquele tempo poderia estar recheado de prazer. Aquela ideia era boa demais para ser ignorada. Fazia muito tempo que no se deitava com uma mulher. Na verdade, desde que sua esposa falecera.
Liwy j no era uma donzela inocente e William sabia que havia alguma atrao entre ambos. Deveria ser bem recebido.
Remover a armadura, no escuro, sem a ajuda de um assistente e em silncio, foi uma tarefa demorada. Deixando as roupas de baixo cadas no cho, caminhou at a cama. Primeiro iria compartilhar um pouco de prazer com ela, depois farias suas perguntas.
Liwy no tinha sonhos to deliciosos e ousados desde a adolescncia. Bem, nunca tivera a chance de conhecer um cavaleiro antes. Mesmo com uma armadura no to brilhante, o charme de William era mais que suficiente para encant-la. Pelo menos nos sonhos.
Na segurana do sono, permitiu-se fitar aquele corpo msculo, chegando a acariciar aqueles ombros musculosos. De repente estava nos braos dele, sendo aninhada a sua frente na sela, de maneira carinhosa, para cavalgar em direo ao pr-do-sol.
Ento sua imaginao voltou  atividade mxima outra vez. Isso era bvio, j que estava comeando a sentir os braos dele a seu redor, puxando-a contra si e roando-lhe os seios. Aquelas mos eram fortes e calejadas, o que parecia ser algo detalhado demais para um sonho, mas ela no pretendia interromper o que estava acontecendo naquele momento.
Aquela sensao a estava levando a sentir uma espcie de frenesi. Ao mesmo tempo em que sua conscincia dizia que procurar apenas por prazer sensual no era o caminho da felicidade, Liwy sabia que nada poderia afet-la em um sonho.
Uma brisa fria percorreu-lhe as costas e aquelas mos quentes a acariciaram, sendo que uma delas comeou a circundar-lhe o umbigo.
 Hum...
Murmurou, ajeitando as costas contra o peito nu de William, provocando-o. A sensao de suas peles roando era maravilhosa. "Sobre o cavalo? E a armadura?", questionou sua conscincia.
"Esquea isso", sussurrou uma voz, no interior de sua mente. O sonho chegou a um final abrupto quando seu cavaleiro saltou para fora da cama, dizendo:
	Voc est grvida!
O tom dele parecia o de algum ofendido. Acendendo o abajur de cabeceira, precisou de algum tempo at que seus olhos focalizassem o ambiente. Desejou no ver ningum dentro do quarto, mas ele estava mesmo l. Pior ainda, o lenol estava quase ao p da cama e a camisola erguida at o pescoo.
	William?
Mais do que depressa, ela puxou o lenol at o queixo, cobrindo-se.
	Milady, se pelo menos eu soubesse sobre sua condio...
	Minha?  Liwy olhou ao redor procurando algo para jogar nele.  E a sua condio que est em perigo aqui.
	Voc tem um amante?
	No.
O olhar dele se fixou no lenol por alguns instantes, dando a ela oportunidade de ver em detalhes tudo o que ele escondia debaixo da armadura.
"Nossa!", pensou, contendo o desejo de soltar um assobio.
	Entendo. Vejo que ficou viva faz pouco tempo. Mais uma vez, peo desculpas, milady.-
Grande e forte como ele era, concluiu que cada milmetro cbico daquela imensa armadura fosse ocupada. Foi preciso concentrao para no ficar boquiaberta.
Pelo que William observou, a barriga de Liwy ainda estava to discreta que s podia ser notada sem as roupas. Talvez trs meses de gravidez, pelo que se lembrava da prpria esposa. Isso significava uma viuvez recente. Se fosse mais tempo, seria fcil compreender o desejo que brilhava naqueles olhos azuis.
Havia tambm a possibilidade de ela no ter amado o marido que tivera. Talvez pudesse nutrir a esperana de que ela o recebesse de braos abertos se o visse voltando para a cama.
Assim que se aproximou, sentiu um travesseiro colidir com violncia contra sua parte mais sensvel, fazendo-o curvar-se de dor.
"Talvez ela sentisse algo por ele", pensou.
Com a voz enrouquecida, murmurou:
	Milady, acho que est precisando de um marido.
Suponho que esteja se oferecendo para tal tarefa, ento?
Endireitando-se e estufando o peito, cobriu-se com o travesseiro e disse em tom firme e forte, aproximando-se:
	Ofereo-lhe minha proteo.
	Preciso ser protegida de voc, e no por voc.
	Est me rejeitando?
	No estou procurando uma aventura de uma noite.
	E eu no pensei em uma aventura.
O sorriso dela foi tristonho.
	No, obrigada.
	Com certeza eu no aceitaria dividi-la com mais ningum.
	Saia, William.
	Milady...
	Saia, antes que eu faa mais algumas cicatrizes em seu corpo. Saia de meu quarto.
	Esse era meu dormitrio, muito tempo atrs.
	Pare  disse Livvy, revirando os olhos.
	Se vai me rejeitar, precisarei encontrar-lhe algum adequado.
	Suma daqui.
Colocando o travesseiro na cama, ele ficou de costas enquanto se vestia.
	Voc precisa ter um marido.
	Est falando igualzinho minha me  reclamou ela, fazendo uma careta.
	Nesse caso, deve se tratar de uma pessoa sbia. Uma mulher sozinha  um alvo fcil para homens inescrupulosos.
	 mesmo? E quanto aos noivos e maridos sem escrpulos?
William no pretendia ceder.
	Ainda mais em seu estado atual.
	Nesse caso, que Deus me salve das pessoas sbias. Acima de tudo de minha me, que se preocupa vinte e quatro horas por dia.
	Mes so assim mesmo.
	No espero que me entenda. Voc tem um irmo.
"Em algum lugar", pensou, concluindo que Liwy no estava assim to sequiosa por companhia. Era melhor voltar sua ateno a tentar descobrir onde, ou quando, estava situado.
	Em que ano estamos?
	Oh, William, desista, sim?
	Por favor, milady. Preciso saber.
Ela franziu o cenho com ar preocupado.
	Por acaso est sofrendo de algum tipo de amnsia? Meu Deus. Por acaso bateu a cabea quando caiu do cavalo?
	Eu no ca!
A risada que ouviu dela foi suave e educada.
	Sim, claro, est bem.
	Por favor, responda minha pergunta.
Liwy soltou um longo suspiro, inclinou a cabea para o lado e respondeu, corno se estivesse falando com Chelsie:
	Estamos em 1998. Agora, quer que eu chame um mdico?
"Quinhentos anos!", pensou, atnito. No era possvel que Sarah, Tom e Liwy estivessem todos errados. Com passos lentos e incertos ele se aproximou da cama e se sentou.
	Tem certeza?
Ao v-lo em sua cama, ela se afastou para o extremo oposto.
	O que est fazendo?
William concluiu que, talvez, se_ fingisse estar mesmo sentindo-se mal, fosse acomodado naquele colo macio para ser confortado.
 Minha cabea est girando. Acho que fui atingido aqui.
Inclinando-se com ar teatral, massageou a nuca com a mo.
	Oh, sinto muito. Eu no sabia sobre aquela armadilha do vov ser algo violento. S queria ter a oportunidade de tir-lo da festa, mas no tencionava feri-lo. Est sangrando?
Antes de responder, foi preciso fazer um grande esforo para parecer fraco. Se bem que, tendo descoberto que estava no futuro e estando ao lado dela, na mesma cama, o que no lhe faltava eram razes para estar desorientado.
	No tenho certeza. Talvez deva chamar um mdico.
	Vire-se.
Ao faz-lo, foi impossvel no sorrir. Mas quando a mo dela percorreu seus cabelos, escapou-lhe um gemido de prazer.
Hum...
Em resposta, levou um empurro da cabea.
	No me parece ferido.
	Ai!
Ao se virar, torcendo para ver se o lenol que a cobria havia escorregado, descobriu-se sem sorte.
	Saia de minha cama.
Ele gostaria de que lhe fosse permitido ficar.
	Milady, peo que tenha pacincia. Sou um estranho para essa poca, e tenho muitas perguntas.
	Por acaso essa conversa j convenceu algum?
	Ainda no  reclamou William. Ser que no tem compaixo por um viajante em m situao?
	Claro que tenho. Pode se acomodar com os outros cavaleiros, do lado de fora das paredes do castelo.
Naquele momento, ocorreu-lhe que seu tempo poderia ser curto. No fazia ideia de quanto tempo ficaria ali. O que aconteceria se a magia de Edward o jogasse em outra poca, a qualquer momento, sem mais nem menos?
Daquela forma, no poderia cortej-la. Uma mulher grvida precisava de um marido estvel. Seria desonrado conquist-la estando sob o risco de ser capturado pela nuvem outra vez, a qualquer instante.
Por mais que lhe doesse e que seu corao ficasse arrasado, deveria respeitar o cdigo e ver que o bem-estar dela, de Chelsie e da criana em seu ventre estivessem garantidos.
Acabando de colocar as ltimas peas da armadura, disse:
	Pode ser que eu parta sem sobreaviso, milady. Prometo que, enquanto estiver aqui, trabalharei noite e dia para lhe encontrar um marido. Dou-lhe minha palavra de cavaleiro.

CAPITULO VI

Liwy ficou deitada na cama, no escuro, de-fsejando que a visita de William no tivesse passado de um sonho. Assim poderia fechar os olhos e saborear cada momento que sentira-lhe o toque, o calor do corpo e o hlito quente e sensual.
Parecia estar lidando com a encarnao da tentao, quer estivesse de armadura, andando de maneira ruidosa pelo castelo, ou nu e excitado, atrs de um pequeno travesseiro.
Mas sua verso medieval de Apoio partiria ao amanhecer, junto com os outros cavaleiros. Afinal de contas, todos tinham uma profisso oficial e o contrato s dizia respeito ao evento do casamento. No havia exceo alguma.
De certa forma, era uma pena que "tivesse de v-lo partir. Todos o adoravam. Exceto Lo. Mas, como o casamento da filha dele fora um sucesso, no precisaria mais se preocupar com isso.
Mas se o verdadeiro "sr. perfeito" aparecesse em sua vida, deveria ser algum apto a ficar sobre o cavalo e que no falasse tolices sobre no pertencer quele tempo. Nisso, William lhe lembrava seu av.
Caiu no sono rindo sozinha, lembrando-se do modo dele se fingir desorientado ao ouvir o ano. Era mesmo um timo ator. S ficou curiosa a respeito da meia dzia de pequenas cicatrizes espalhadas pelo corpo dele, a maioria no peito.
Acordando mais uma vez antes de amanhecer, flagrou-se bastante excitada, sonhando com o beijos que recebera dele,  entrada do castelo e durante a recepo do casamento.
Controlando sua imaginao, concentrou-se nas atividades que estavam requerendo sua ateno. Precisava colocar a pousada para funcionar o mais depressa possvel. Para tanto, a reforma precisava ser veloz. A festa causara um atraso muito grande e colocara o oramento e o cronograma em risco de falhar.
Mais uma vez, sua busca por antepassados teria de esperar.
S lhe restava esperar que no houvessem outras interrupes  caminho. 
A manh despontou fria e William acordou cedo. Os cavaleiros estavam sem suas armaduras e cuidavam de levantar acampamento. J que deveria ficar naquele sculo por um tempo indeterminado, era melhor observar como as pessoas agiam e se vestiam.
Ali no haveria meios de obter trajes como aqueles. Decidido a conseguir algo, seguiu para o acampamento dos trabalhadores, do lado oposto do castelo. Conseguiu uma roupa estranha, que lhe foi dada por uma espcie de capataz.
Era uma cala feita de material grosso, tingida em tom azul desbotado, mas muito confortvel. Todos usavam aquela pea estranha, cujo tecido seguia cintura acima, at o meio das costas e do peito, aberto nas laterais e presos por grossas tiras acima dos ombros. Cobrindo o torso, usavam uma camisa de mangas curtas, sem abertura para vestir, que precisava ser colocada pela cabea, de maneira desajeitada.
Contudo, uma vez vestido, descobriu que era muito confortvel, mesmo que to deselegante quanto o nome: "jardineira e camiseta", foi o que disseram. Com o tempo descobriria qual pea era o qu. A cintura, por cima de tudo, colocou o cinturo com a espada.
Todo cuidado era pouco. Se a magia de Edward o levasse de volta, no poderia estar desarmado. Na verdade, ainda no sabia se deveria mesmo ficar sem a armadura, pois o risco seria menor dentro de sua blindagem.
Recebeu tambm um estranho elmo, to rgido quanto o seu, mas sem viseira. Aquilo no parecia muito prtico. Pelo menos era muito mais leve do que aparentava. Mas a estranha cor de laranja era horrorosa.
Estava admirando aquelas slidas construes sobre rodas, do tamanho de pequenas casas, com portas inteiras, janelas de vitral transparente e rodas do mais estranho material que j vira at ento. Aquelas eram as habitaes de acampamento dos trabalhadores.
Ento uma mo gorda pousou em seu ombro.
	Que belo tombo voc levou ontem, hein, grandalho?
	 mesmo  respondeu ele, fazendo uma careta.  Mas se estivesse com meu prprio cavalo, aquilo no teria acontecido.
O sorriso do homem foi sincero quando cutucou as costas dele com o cotovelo, ao falar:
	Pode ser, mas lembre-se da recompensa que ganhou depois.
	Sim, isso  verdade.
	Acho que os cavaleiros continuam conquistando as donzelas, no  mesmo? H quanto tempo vem fazendo isso?
	O qu?
	Esse negcio de cavaleiro.
	Bem, pelo que descobri, uns quinhentos anos.
	Oh, claro  falou o avantajado trabalhador, soltando um suspiro antes de comear a se afastar.  Como quiser. Mas no acha que  um pouco de exagero usar uma espada no trabalho?
	Nunca se sabe quando pode aparecer um inimigo pela frente, amigo. 
A resposta foi sincera e arrancou uma risada do simptico homem.
Conforme seguia em direo  entrada de servio do castelo, na companhia do grupo de trabalhadores, ficou pasmo diante daquelas pequenas, barulhentas e destruidoras ferramentas. O grupo parecia fazer mgica com seu equipamento.
	Ei, qual  o seu nome?  indagou um homem, com um comprido rolo de papel na mo.
	Lorde William.
	Oh, sim. Ouvi falar a seu respeito.  o cavaleiro que pensa ser o dono do castelo, certo?
A voz dele parecia a do tal George, a quem escutara mas no vira.
	Isso mesmo. O Castelo Marsh e toda a terra que o cerca so propriedade minha.
	Otimo. E eu sou o rei da Inglaterra. V trabalhar.
De nada adiantaria ser expulso do castelo, j que precisava encontrar um marido para Liwy, e tambm tentar desvendar o mistrio da viagem no tempo.
Aos poucos, foi abordando alguns dos trabalhadores, tentando descobrir algum que fosse solteiro. Logo na primeira tentativa, percebeu que a abordagem direta no era eficiente. Por outro lado, ao tentar uma aproximao mais sutl, ouvia os homens pedirem licena para continuar trabalhando.
Isso sem falar no rudo. Era quase impossvel ouvir o que ele mesmo falava. Depois de muito observar, viu que todas ferramentas tinham algo em comum: antes de ganhar vida na mo dos trabalhadores, eles ligavam um cordo preto que saa das entranhas delas at vima caixa metlica grudada na parece. Deveria haver alguma relao entre elas.
Antes de fazer o que pretendia, tentou impedi-los de continuar a destruir seu lar ancestral.
	Parem!
O grito foi dado a plenos pulmes, mas o rudo das mquinas o encobriu. Ningum parou. Aproximou-se ento do carpinteiro, que estava serrando uma tbua no meio com sua ferramenta. Apontou a espada para o homem, fazendo-o parar e se afastar um passo. Ento, com um balano certeiro, cortou a viga por completo, de um s golpe, continuando do ponto exato onde o outro parara.
O estrondo da madeira caindo e o movimento fez com que todos parassem para olh-lo. Aos poucos, o silncio reinou no ambiente.
	Por que fez isso?  indagou um deles.
	Para ter a ateno de todos.
	Bem, acho que conseguiu  respondeu George.
	Ouam-me. Vocs precisam parar de usar essas ferramentas.
Um trabalhador sorriu e perguntou:
	Est sugerindo que usemos espadas?
	Ei, eu sempre ouo que tem a arma mais poderosa.
Essa coisa consegue atravessar uma tbua de que espessura?  questionou outro.
William ficou satisfeito com o resultado de sua investida, pois todos pararam para ouvi-lo. Mas logo em seguida Livvy chegou.
	O que est acontecendo aqui?
Diante daquele tom autoritrio, os trabalhadores abriram passagem para ela.
	Milady  disse ele, curvando a cabea.
	Eu deveria ter imaginado. Onde est George?
Desconcertado, o empreiteiro saiu de trs de um dos homens. At ele havia parado para ouvir.
	Sinto muito, srta. Ravenwood.
	Faa-os voltar ao trabalho, sim?
	Mas, acabei de conseguir faz-los parar  protestou William.
	Isso no acontecer de novo  garantiu Liwy, No?
	Mal posso acreditar que esse seja seu trabalho oficial. Bem, est demitido. No adiantou tranc-lo no calabouo, pois voc parece ter talento para fugas tambm, ento s me resta mand-lo embora.
	No pode me demitir.
	Acabei de faz-lo. Adeus.
O sorriso dela foi vitorioso e carregado de significado. Os trabalhadores pareceram ter ficado convencidos de quem estava vencendo a disputa, pois todos voltaram a seus postos e voltaram a usar suas ferramentas. Seria preciso agir depressa.
	Eu no trabalho para voc...  disse Wiliiam, em alto e bom som.
Caminhou ento at a caixa de metal para onde os cordes seguiam, ergueu a espada e desferiu contra ela seu melhor golpe. A lmina a atravessou at atingir a madeira que havia ao fundo. Houve uma enxurrada de fascas e, por um instante, a arma pareceu dar um coice nos braos dele.
Foi preciso muita fora para no cair. Puxando a espada de volta, observou que todo o rudo cessara de uma s vez.
	...e nem eles, a partir de agora.
Em vez de fascas, Liwy viu dlares jorrando pela caixa de fora destruda.
	E isso  disse George, olhando para seus homens, que de imediato comearam a guardar os equipamentos e seguir para a porta, como um bando de desertores.
	Esperem  gritou Liwy, fazendo-os parar onde estavam.  Voltem. Isso pode ser concertado. Diga-lhes, George!
	O eletricista vai comear a trabalhar aqui agora mesmo, mas demorar uns dois dias para ficar pronto.
	Dois dias?
O castelo inteiro deve estar sem energia. Se quiser banho e comida quentes,  melhor ira para a pousada Chesire no vilarejo. E um bom lugar.
	Isso, hospede-se no vilarejo  concordou William, sem a menor preocupao.
	De modo algum. Estaremos muito bem aqui. Tenho certeza que podemos sobreviver a algumas refeies frias e banhos gelados.
	A maior parte de meu castelo foi destruda por vocs, mas ainda h muitas lareiras e foges a lenha inteiros. Por que no cozinha e esquenta gua neles?
Ao ouvi-lo, foi difcil para ela segurar o riso.
	Esses hbitos foram abandonados na Idade Mdia.
	Nesse caso  respondeu ele, sorrindo de maneira provocante   bom que eu esteja aqui, no ? Estou acostumado a lidar com essas coisas.
	No, obrigada. Estaremos bem melhor sem voc.
	H uma frente fria se aproximando  advertiu George, preocupado. No posso fazer nada pelo aquecimento deste lugar. Seria bom deix-lo por perto para acender algumas lareiras.
	Isso mesmo  concordou William, to sensual com roupas de trabalho quanto de armadura.
	O que voc ?  indagou Liwy, encarando-o.
	Como assim?
	Carpinteiro?
	Oh. No.
	Eletricista, talvez?
	O que  um "eletricista"?
	Algum que pode consertar o estrago na caixa de fora.
	No, milady. Mas posso organizar os homens e buscar lenha. Se precisar de carne, posso caar.
Balanando a cabea negativamente, ela disse em tom desanimado:
	S tenho uma coisa para lhe dizer.
	Sim?
	Voc precisa procurar ajuda, William.
	Com certeza  concordou ele, olhando ao redor e apontando para os homens prximos  porta.  Vocs! Isso mesmo, vocs. Quem tem esposa e famlia esperando em casa?  a maioria levantou a mo  Dispensados.
Os demais, sigam-me.
	Onde est nos levando?  indagou um deles.
	Vamos buscar lenha para aquecer este lugar.
Para surpresa dela, nenhum dos trabalhadores desertou da tarefa nem tentou seguir para os furges.
	Impressionante.
O av dela apareceu naquele momento, fechando a mo com fora ao redor do cabo de seu revlver.
	Esperava que William tivesse partido.
	Eu tambm  respondeu Liwy, fitando-o de soslaio para ver se ele havia percebido que aquilo no era verdade.
 Ei, vov, est tudo bem?
	Sim.
	No precisa se preocupar assim. Alm disso, no pode atirar nele por ter cavalgado seu cavalo.
	No  com o cavalo que estou preocupado.
Liwy conseguiu se manter ocupada, mesmo sem energia eltrica. Limpar e tirar o p ainda eram trabalhos manuais. Enquanto trabalhava, no conseguia deixar de pensar em William. A certa altura, Chelsie a interrompeu, contando a grande ideia que tivera naquele dia: poderiam fazer um torneio de cavaleiros medievais para levantar fundos.
Estava sendo difcil tentar dissuadi-la e o anncio da chegada de Lo a aliviou. Talvez a garota se distrasse e parasse de insistir naquele tpico.
Enquanto seguia para o saguo, encontrou os trabalhadores voltando, com os braos carregados de lenha. A frente deles, William parecia sorrir de maneira confiante. Aps orient-los sobre os lugares a serem abastecidos, descarregou sua parte na lareira principal e ficou ali mesmo, ajeitando as toras para fazer fogo quando a noite chegasse. Liwy pode notar que a habilidade dele era mesmo admirvel.
Naquele momento, a porta se abriu. Lo cansara de esperar  frente.
	Srta. Ravenwood.
	Lo  cumprimentou ela com educao.
Ele se aproximou com passos firmes e lhe estendeu uma folha de papel.
	Vim apenas para notific-la.
	Como assim? No estou entendendo.
	 muito simples. A festa de minha filha foi um fiasco. Estou pedindo a quitao imediata de sua dvida.
	Mas, Lo, a recepo foi maravilhosa. Estamos com a inaugurao marcada para daqui a menos de um ms. Tenho que pagar os trabalhadores e...
	Seu prazo se extinguira no final do ms, srta. Ravenwood.
 O qu? Quer seu dinheiro em duas semanas? Isso  impossvel!
	Pague, ou o castelo ser meu  disse Lo, balanando o papel na frente dela.
O rudo que William emitiu foi to furioso que soou quase inumano.
	Bem, por enquanto ainda  meu  vociferou ela.  Saia daqui. J.
	O castelo jamais ser seu  disse William, tomando a frente e confrontando o gordo burgus.
Levando a mo  barriga, o homem olhou para ambos e comeou a rir com desdm.
	Oh, sim. Voc  o maluco que diz que tudo aqui  seu, no ? Pensa que a propriedade ser sua?
	Isso tudo j  meu. E se eu tiver de partir, ser de Liwy.
	Est muito enganado, seu gigol.
Se ela soubesse que William conseguiria erguer aquele homem pesado com tanta facilidade, talvez tivesse tentado impedi-lo. Talvez.
No instante seguinte, Lo estava suspenso no ar e sendo atirado porta a fora.
	A dama disse que no queria sua presena no castelo.
Ao voltar para dentro, ele estava batendo as mos, como se o contato com aquele homem o tivesse sujado.
	Oh, William, creio que no deveria ter feito isso.
	Por que no? Aquele idiota foi rude com voc.
	Mas eu devo muito dinheiro a Leo.
	Por acaso tem o dinheiro para pag-lo?
	No.
	Nesse caso, no fiz nada de errado.
	Talvez no  murmurou ela, desanimada.
	No se pode cobrar o que no existe.
	Mas o castelo  a garantia do emprstimo.
	Milady, o castelo  meu.
O brao dele estava sobre seus ombros, apertando-a de maneira a confort-la. S ento Liwy se deu conta de que William acabara de expulsar um homem do castelo por ela. Se aquilo tivesse acontecido quinhentos anos antes, talvez aquela atitude pudesse ser considerada romntica.
O problema era que, mesmo estando no final do sculo XX, estava achando aquilo maravilhoso...
William se convenceu de que Leo era descendente do cl Leopold. A semelhana era muito grande para ser coincidncia. At o nome era semelhante. -
Depois daquilo, Liwy no estava com nimo de responder suas perguntas.
	Viu s? Eu tinha razo  disse Chelsie, aproximando-se dele enquanto observava sua me se afastar pelo corredor.
	Sobre o qu?
	Precisamos fazer um torneio para ganhar dinheiro e pagar a dvida, seno a mame perder o castelo para Leo e teremos de voltar para os Estados Unidos.
	Silncio!
No era possvel pensar com aquele falatrio.
	Teramos de morar em um apartamento velho e mido, perto do centro, onde o ar cheira mal e os vizinhos falam pa...
	Como um torneio poderia ajudar?
	Eu venderia entradas e assim ganharamos dinheiro. Isso sem falar nos programas e refrescos.
	Seu pai no lhe ensinou nada alm disso, menina?
	No me lembro dele.
A me dela no poderia estar com mais de trs meses de gravidez.
	Talvez seu tio, ento.
O sorriso de Chelsie mostrou que estava acostumada com aquele tipo de insinuao.
	Tambm no h nenhum tio. Mame engravidou em um laboratrio.
	O que quer dizer essa palavra?
	 o nome de um lugar onde eles tm um banco de esperma.

CAPITULO VII

De um momento para outro, William no queria conversar mais a respeito daquilo com uma precoce menina de oito anos. Precisava conversar com Liwy pessoalmente e naquele exato instante.
	As mulheres vo l para engravidar.
	Silncio  exigiu ele, suavizando o tom ao ver que a assustou.  Diga-me, como isso  possvel. No, no diga.
O que poderia haver de errado com ela? Teria sido rejeitada por ser independente demais? Nem todos homens apreciavam aquilo numa esposa. Mas nada parecia ser justificativa para uma mulher linda como ela ter de ir a um tal de "laboratrio" para engravidar fazendo amor com "um desconhecido. O que havia de errado com o velho mtodo tradicional?
Respirando fundo, ele continuou:
	Bem, diga-me o motivo.
	Porque a mame no teve sorte com homens em Illinois. Ela diz que est feliz por ter feito assim, pois quer que eu tenha pelo menos um irmo ou irm. E todos os homens que apareceram por aqui foram espantados pelo meu av.
	Entendo  murmurou William, constrangido, porm mais determinado ainda em arrumar um marido responsvel para ela.
Tudo aquilo era muito confuso. Se Liwy no o tivesse rejeitado, se tivesse certeza de que no seria sugado no tempo outra vez e se soubesse que haveria uma forma de ajud-la, mesmo que partisse, tudo seria simples.
S lhe restava tentar ajud-la antes de partir.
	Ento, pequenina, voc acha que um torneio ajudar.
	Sim, claro, poderamos...
	Silncio. Deixe-me pensar um pouco.
Um torneio atrairia cavaleiros de terras distantes, muitos adequados a se tornarem bons maridos. Mesmo que a ideia de v-la ao lado de outro homem quase o deixasse doente, era sua obrigao, como lorde, garantir a segurana dela em sua eventual ausncia.
S precisaria tomar cuidado para que o melhor candidato no morresse ou se ferisse no processo, antes de se casar com ela.
	Sim, eu a ajudarei. Mas ser um torneiro com armas no fatais. Venha. Vamos conversar enquanto cao algo para nossa refeio.
Liwy ajeitava a cozinha, colocando a mesa para quatro pessoas, enquanto esperava William voltar com a tal "caa". No teve tempo de explicar que bastaria descongelar algo e concluiu que seria mesmo melhor. Quanto menos abrisse o freezer, melhor, j que estavam sem energia eltrica.
Ele chegou, trazendo duas lebres mortas penduradas a uma vara de madeira, como se fossem trofeus de pescaria.
Ao olhar para sua filha, viu a face dela tingida por algo que parecia ser terra vermelha.
	Voc caiu, querida? Foi assim que sujou todo o rosto?
	No  falou a menina, indignada.  E sangue de lebre.
Livyy fez uma careta. Deveria ter entendido mal.
	 o qu?
	Sangue de lebre  repetiu Chelsie.
	Sabe como   disse William  para as sardas.
	No, no sei  assegurou ela, erguendo a mo para impedi-lo de explicar.  Nem quero saber.
	Isso  bom para tirar sardas, mame.
	At onde sei, parece que fizemos certo. Era minha esposa que cuidava desse tipo de assunto.
Ela teve a impresso de que o mundo parou por um instante.
	Sua esposa?
	Sim, milady. Em minha poca, eram as mulheres que lidavam com tais detalhes. Contudo, Chelsie me disse que hoje em dia  bem diferente.
	Voc  casado?  indagou Liwy.
Por melhor ator que fosse, parecia impossvel que algum forjasse a expresso triste que fez o sorriso dele desaparecer por completo.
	No. Minha mulher e minha filha morreram.
	Oh. Sinto muito.
	Foi a muito tempo atrs, milady.
	Foram vtimas da praga  explicou a garotinha, sem se alterar diante do conceito de morte.No sculo XV eles tiravam sardas com sangue de lebre e no tinham caminhonetes.
	Isso, as caminhonetes  repetiu William, voltando a ficar animado.  Observei os trabalhadores partindo naquelas estranhas carruagens. No h cavalos para alimentar e cuidar, apenas fora! Jamais imaginei que viveria para ver algo to impressionante.
	Sei, sei  desconversou ela.
	Ele  um viajante do tempo, sabia mame?
	No , no, filha. Agora, v lavar o rosto.
	Mas preciso ficar assim at o anoitecer.
Liwy pegou a menina pela mo e a levou at a pia, abriu a torneira e, por hbito, ficou esperando a gua esquentar.
	Lave.
	Mas a gua est fria, me.
	Culpe William  falou Liwy, que se esquecera de que estavam sem eletricidade.
	Est bem, posso fingir que estou no sculo XV.
William se sentia deslocado girando as lebres no espeto sobre as chamas. No estava acostumado a fazer o trabalho de serviais. No que no pudesse faz-lo: ao longo daqueles seis anos em que estivera longe de casa, passara longos perodos cuidando de tudo sozinho.
Se fosse delegar a tarefa a algum, com certeza o trabalho recairia sobre Liwy, j que no havia empregado nenhum ali. Pelo visto, Sarah estava de folga desde que destrura a caixa de metal com sua espada.
	O que  que est fazendo?  indagou ele, vendo-a mexer em algo na pia.
	Imaginando uma maneira de coloc-lo no eixo.
	Pode-se colocar pessoas em eixos hoje em dia?  por isso que os caminhes no precisam de cavalos?
	Oh, mas que coisa...  ela deu de ombros, soltando um suspiro.  Esquea. No momento, estou apenas limpando e arrumando as batatas para assar na brasa.
	Batatas? O que  isso?
	Um tipo de vegetal.
	No sei se gostarei disso.
	Por favor, no comece...
William fez uma pausa.
	Por que prende o cabelo atrs da cabea dessa maneira?
	Para que eles no fiquem nos meus olhos. Venta muito por aqui.
	No dentro do castelo.
	 verdade, mas passo muito tempo do lado de fora.
	Entendo.
	Acabei. As batatas esto prontas.
Liwy lhe entregou uma bolota de prata brilhante, toda disforme, colocando uma bacia cheia daquelas peas estranhas diante dele.
	Isso?
	Deveramos ter comeado antes, mas vamos ver se d certo. Pelo menos so pequenas.
Ele virou aquilo na mo, com cuidado, examinando o objeto com muita ateno, at que descobriu que a prata era uma cobertura de algum tipo. Na verdade, o mais fino metal que jamais vira. Ao erguer o rosto para encar-la, ficou em dvida sobre o que lhe despertava mais curiosidade: a dama ou aquelas coisas que ela lhe entregara.
	Essas bolotas devem ser colocadas na brasa?
Ao v-la sorrir, William a escolheu de imediato.
	Pensei que um cavaleiro da Idade Mdia saberia muito bem dessas coisas.
	Est me provocando, milady?
Ainda admirado com o fato de se embrulhar vegetais em metal, pegou todas as "batatas" e as ajeitou em meio s brasas. Quando se virou, estava s.
Mas o sorriso dela lhe acariciava a memria. Se fosse sugado no tempo outra vez, levaria aquela lembrana consigo para sempre.
Algum tempo depois, quando a comida estava pronta, talvez a fome, talvez o cheiro do assado, era difcil saber qual, fez com que todos chegassem  cozinha.
Liwy, que j havia arrumado tudo antes de sair, deixando-o apenas com a incumbncia de acabar de assar a carne e cuidar das batatas, sentou-se  mesa, ajeitando Chelsie a seu lado. O velho av dela chegou em seguida, fazendo uma careta aps a outra.
Parecia estranho, mas o rosto dele lhe lembrava algum. S que era impossvel dizer de quem se tratava.
Sentado em frente a Liwy, William encostou as pernas nas dela, debaixo da mesa. tomando cuidado para suas botas de trabalhador no a machucarem.
Para sua surpresa, ela no o evitou. Olhou-o de soslaio, mas aceitou a situao.
	Esse assado est delicioso  disse ela.
	Parece galinha, no , mame?
	 mesmo. Mas use o garfo para comer, querida.
	William no est usando.
Foi ento que o contato entre as.pernas deles foi quebrado.
	Minhas sinceras desculpas, milady  disse ele, pegando tambm o garfo.
A batata tambm est tima  disse a menina. 
Imitando os outros, usou o pedao de pano colocado ao lado do prato para segurar e desembrulhar sua batata.
O que  isso?
	Papel alumnio  respondeu Liwy, revirando os olhos em seguida, como se no tivesse a inteno de responder mais de suas perguntas e o fizera sem querer. Depois de algum tempo, suas pernas voltaram a se tocar.
	E ento, William? De onde voc ?
	Isso mesmo. De onde?  exigiu o velho, que o olhara com ar suspeito a longo de todo o tempo.
	Daqui mesmo.
	Por acaso nasceu no vilarejo?
	No, milady. Aqui mesmo, no castelo.
	Nossa!  exclamou Chelsie.  Diga em que quarto foi que poderemos cobrar ingressos.
O velho ficou de p de repente, derrubando a cadeira atrs de si e causando um estrondo.
	Volte para o lugar ao qual pertence!  ordenou ele, virando-se e deixando a cozinha com muita pressa.
	Vov  chamou Liwy, sem resultado.  Sinto muito, William. No sei o que deu nele.
. Quem ele  esta semana?  resmungou a menina.
Havia algo muito familiar naquele velho, que o deixava pouco  vontade.
Acho que devo segui-lo.
Chelsie comeu em silncio pelos trinta segundos seguinte, que era o que Liwy esperava.
	Pode me dar licena?
	Fique a e termine sua refeio.
Embora compreendesse a curiosidade da filha, era provvel que o que eles fossem discutir no fosse adequado para ser ouvido por uma menina de apenas oito anos de idade.
	Nunca posso fazer nada do que quero.
	Eles esto resolvendo assuntos de adulto.
	Isso no faz diferena. Nunca me deixam ajudar mesmo.
Com pacincia, Liwy olhou para a filha.
	E como pretende ajudar, querida?
	Na questo da briga deles, no pensei ainda. Mas sei que estamos sem dinheiro.
	Deixe que eu me preocupo com isso, sim?
Pelo menos escute. Se fizermos um torneio, podemos cobrar ingressos, vender sanduches, refrigerantes, lembranas...
	Calma  disse ela, balanando a mo em frente a filha para faz-la parar.  Ns somos de Illinois, lembra-se?
	Sim, e da?
	O que sabemos sobre torneios?
	Ns, nada. Mas William sabe tudo. Alm disso, seria uma grande publicidade para a pousada.

	Quantos anos voc tem, mocinha?
Chelsie riu do tom de sua me.
	Oito.
	Tem certeza?
	Me...
	Quem lhe ensinou essas coisas?
	A vov. Ela mostrou tambm como se faz contratos.
	Voc s tem oito anos de idade.
	E da?  indagou a menina, com ar inocente.
Liwy suspirou.

	Bem, acho que devo comear logo a poupar dinheiro para sua faculdade. Nesse ritmo, no vai demorar para chegar l.
	Ento podemos fazer o torneio?
	Filha, no temos tempo para isso e William no ficar aqui tanto tempo assim.
Se bem que um evento como aquele poderia atrair um ou dois investidores de longo prazo.
	Ele ficaria, se fosse para nos ajudar.
	No h como ter certeza disso.
	Se  assim, devemos perguntar.
	Chelsie...
	Qual o problema? Garanto que no vai doer.
Liwy estreitou os olhos.
	Voc vai estudar direito, certo?
Chelsie riu e se agitou na cadeira.
	Vamos falar com ele?
	Sob duas condies. Primeira: vamos perguntar e  s. Uma nica vez. Sem reclamao, choro ou insistncia.
	Ora...
	Segunda: ele fica longe dos trabalhadores. Sem demonstraes do uso da espada. Nada de perguntas nem danos ao material eltrico. Terceira: no...
	Voc disse duas!
	...no quero saber de sangue de lebre, poes mgicas etc.
A menina riu mais ainda.
	Como v, tambm aprendi com sua av. Temos um acordo?
	Sim. Terei tudo planejado antes de ir para a cama.
O velho tinha uma agilidade absurda para sua idade. No foi possvel alcan-lo, mesmo que a distncia entre eles tivesse diminudo.
Quando percebeu onde estava, William levou a mo  empunhadura da espada. Era o escritrio de seu pai, o lugar misterioso que lhe arremessara no tempo, rumo ao futuro. Ao entrar, viu-o  janela, olhando para o lado de fora, virando-se em seguida para encar-lo.
	J lhe disse para voltar para o lugar ao qual pertence.
	Ainda nem descobri como foi que vim parar aqui. Talvez possa me ajudar.
O velho pegou uma espada de um suporte na parede.
	Vou ajud-lo, sim.
William deu um sorriso que no sentia a menor vontade de dar.
	Pensei que poderia responder a algumas perguntas.
	Acho no ter tempo para faz-las.
Ao acabar de falar, avanou e desferiu um golpe, forando-o a sacar a prpria espada e se defender. O rudo de metal contra metal tiniu em seus ouvidos.
	Sua pressa me lembra muito algum que conheo.
	No brinque  respondeu o velho, forando William a se defender pela segunda vez.
	Um homem tolo.
Ao sentir sua dvida diminuir, um arrepio lhe percorreu a espinha. No poderia ser verdade.
	No to tolo assim.
Quando o velho avanou pela terceira vez e suas espadas colidiram, a lembrana na memria de William foi bastante clara: estivera naquela mesma sala e naquela mesma posio quando sua viagem no tempo ocorrera. No gostara do que acontecera, e no queria que a histria se repetisse.
No sabia qual era o elemento responsvel, se a espada ou toda a sala, mas havia apenas um fator que podia ser mudado naquele instante. Mais que depressa, ele jogou a espada no cho, aos ps de seu oponente.
Com um festejo, j envolto por um leve claro, o velho se abaixou e agarrou a arma cada.
Ento, "puf", ele desapareceu. Apenas o som de sua risada permaneceu ecoando entre as paredes de pedra.

CAPITULO VIII

William no ousou se mover.  Edward?
Aps sussurrar, sentiu-se tolo por haver pensado na ideia de seu irmo e o velho serem a mesma pessoa. Era impossvel.
Temia que, se desse um passo em qualquer direo, pudesse ser sugado para outra era junto com seu oponente. Para o futuro de novo? Com sorte, no.
De volta a seu tempo?
A possibilidade tinha alguns atrativos, mas no queria ir a poca alguma e deixar Liwy para trs. Mesmo que sua posio o impedisse de t-la para si, era preciso coloc-la em segurana antes de pensar em partir.
Se bem que no conseguia aceitar a ideia de nunca mais v-la. Contudo, como um cavaleiro que vivia pelo cdigo, deveria agir conforme sua honra e garantir a segurana de seus protegidos. Como havia a possibilidade de o tempo sug-lo a qualquer momento, nada poderia ser feito.
Depois de algum tempo, nada havia mudado. Nenhuma nvoa escura. Nada do ambiente ficar embaado. No houve a sensao de ser arrancado pela janela. Nem mesmo a de tropear.
Ento caminhou at a porta. Ao abri-la, no sabia se encontraria um cenrio de seu sculo ou do futuro.
L estava Liwy, com os braos cruzados, batendo o p no cho com impacincia.
	Bem, vejo que no ganhou nenhum buraco de bala.
	No, milady.
	Menos mal  ela passou pelo lado dele e entrou no escritrio.  Vov, ouvi que estavam discutindo e achei melhor esperar l fora.
Do lado de fora, William a observou ficar em silncio ao dar uma olhada no lugar.
	Onde est ele?
	Saiu,
	Eu estava do lado de fora da porta e os ouvi discutindo at h pouco. Inclusive, escutei trs estranhas batidas.
	Sim, ns tivemos uma pequena disputa.
	E onde est meu av?
	Bem, na verdade, considerando as possibilidades, no sei.
	Como pode no saber se estavam juntos agora mesmo?
	 que, bem... ele desapareceu.
	Desapareceu?
Mesmo que quisesse poup-la, no poderia mentir. Precisava honr-la com a verdade.
	Isso mesmo. Viajou pelo tempo, temo eu.
	Pelo tempo?
	Sim. Foi da mesma maneira que cheguei aqui. Eu estava nesta sala, duelando com meu irmo, quando, de repente, "puf". Uma nuvem escura me envolveu, arrancando-me de l e me largando aqui.
"Pu"?
	Exato, milady.
Naqueles ltimos meses, desde que fora morar l, Liwy aprendera a gostar muito de seu av. Acostumara-se s excentricidades dele, mas no estava pronta ou disposta a suportar o mesmo tipo de besteira de um desconhecido.
Justo quando estava achando que havia encontrado algum de quem gostava de verdade.
Mas havia mesmo escutado a discusso l dentro e o escritrio s tinha uma porta. Ainda assim, seu av no estava mais ali.
O que poderia pensar? Que aquela histria era verdade? Se fosse, William poderia ser mesmo um honrado e honesto cavaleiro medieval.
Impossvel.
Deveria haver alguma passagem secreta que ainda no descobrira. O velho costumava passar dias sem ser visto por ningum.
	Estarei na cozinha, cuidando da limpeza. Se meu av voltar, diga-lhe que preciso lhe falar, sim?
Liwy ficou satisfeita com a calma que demonstrou. Nem o chamou de mentiroso, nem insinuou que pensara em acreditar nele.
Ao sair dali, foi seguida de perto. Ignorou de maneira categrica todas as tentativas dele em comear a conversar. Apenas mantivera o silncio. Contudo, quando comeou a esvaziar os pratos na lixeira, foi difcil ignor-lo.
	Milady, o que est fazendo? Eu imploro para que pare.
O correto  entregar isso ao clrigo.
	A quem?
	Ao religioso local, cuja obrigao tradicional  distribuir aquilo que no vai ser usado, entregando roupas e comida aos pobres e necessitados.
Ou estava de um homem muito bom, de um louco ou de algum que pertencia mesmo ao passado. Em qualquer das opes, William era sinnimo de encrenca.
Se fosse assim to bom a ponto de se preocupar tanto com os outros, Liwy estaria perdida, pois iria se apaixonar de maneira irremedivel. Era apenas uma questo de tempo,
No caso de se tratar de um louco, a segurana dela e de Chelsie estavam em risco.
Mas se a opo real fosse a do viajante no tempo, ela mesma no sabia se poderia aceitar aquilo.
Contudo, naquela noite, iria trancar a porta do quarto e levaria a menina para dormir consigo.
	Vamos ter um torneio  declarou Chelsie, naquela mesma noite.  Foi o que mame disse.
	Isso  verdade?  indagou William.
	Sim, . Antes do final do ms.
	Quanto falta para o ms acabar, pequenina?
	Mais ou menos duas semanas. Alis, quase um "qindnio", pelo que me ensinou sobre sua era.
	Isso  impossvel. Os mensageiros no poderiam chegar longe em to pouco tempo.
	Vou colocar o chamado na Internet.
	E isso  mais rpido do que cavalos?
	Mais rpido do que as caminhonetes.
"Impossvel! Eu vi aquelas coisas correndo pela estrada", pensou.
	E isso trar muitos homens?
	Claro!
	Solteiros?
Chelsie deu de ombros, mas William no se incomodou. Com o torneio, seria fcil encontrar o marido para Liwy.
	Vou comear a planejar o que faremos  assegurou ele.
	Vamos dividir em sessenta/quarenta.
William ficou parado ao p da cama. A mesma que ocupara quinhentos anos antes. Foi diferente quando se deitou nela dias antes. Estava muito mais confortvel e luxuosa. As pessoas do sculo XX sabiam como viver bem, embora tivessem deixado para trs muitas coisas boas tambm.
Foi preciso ocultar-se nas sombras quando Liwy se mexeu, ajeitando Chelsie a seu lado. Era uma viso maravilhosa. Como nenhuma delas acordou, ele se aproximou outra vez.
Sem desejar ficar longe dela, afastou-se apenas para alimentar mais as chamas da lareira que acendera para ela horas antes. Sentindo-se hipnotizado, retirou do bolso o papel alumnio que guardara, dobrando-o na forme de um rudimentar corao. Aps desdobr-lo, ficou impressionado por poder alis-lo e comear outra vez.
Com um pouco de prtica, pegaria o jeito de lidar com aquilo. O mesmo aconteceria com Liwy, se tivesse certeza de que iria ter tempo.
Aquilo o fez lembrar de que precisaria arrumar um marido para ela. Como poderia suportar tal ideia? Tinha de admitir para si mesmo que estava com cime.
Mas no poderia se deixar levar. As obrigaes de um cavaleiro eram sua essncia. Precisava proteg-la e garantir seu futuro. Naquele instante, precisava arranjar outra espada. E se outras pessoas pudessem viajar no tempo e surgissem ali, do nada? Deveria estar preparado.
Aps lanar um ltimo e sequioso olhar na direo dela, caminhou em silncio at a passagem secreta. Fechou-a com cuidado atrs de si e rogou para que a sala do arsenal no tivesse sido desmantelada por reformas.
Liwy passou os dois dias seguintes ajudando Chelsie na elaborao do torneio. Ao contrrio do que esperava, William estava se mostrando mais experiente do que jamais imaginara. Parecia mesmo um experiente cavaleiro. Falava de situaes e batalhas como se as tivesse vivido, uma a uma.
Era preciso se esforar para se lembrar de que era um ator. S que as vezes era impossvel acreditar que ele estivesse interpretando. Parecia real.
Em certa ocasio, quando sua filha machucou o brao ao cair em uma escada, ele a pegou nos braos e a segurou no colo, conversando com a menina como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Lembrou-se da histria que ele contara sobre ter sido pai. Apesar de ter assumido que tudo o que ouvira dele era mentira, concluiu que aquela pequena parte deveria ser verdadeira. William tinha muito jeito com a garotinha, alm de ser carinhoso e atencioso.
Observando a postura educada dele, conversando ao mesmo tempo em que confortava Chelsie, no era nada difcil enxerg-lo como o "cavaleiro em brilhante armadura" de seus sonhos, mesmo que a dele estivesse um pouco desgastada e encardida. 
William sentiu a cabea girar, de repente, mas no havia relao alguma com viagem no tempo. No uma ligao direta, pelo menos.
Vira algo naquele velho que o incomodara muito, desde a manh em que fora acordado por ele no acampamento dos cavaleiros. Seria possvel que o homem soubesse a respeito da viagem no tempo? Desde o comeo, sempre repetira a mesma coisa: "volte para o lugar ao qual pertence", ou algo parecido.
Quando duelara com ele no escritrio, tivera uma estranha sensao de dj vu. Aquilo havia acontecido antes. Fazia quinhentos anos.
Contudo, sua teoria precisava de confirmao.
Encontrou Liwy em outro escritrio, menor e mais moderno do que a sala onde aquela aventura comeara.
	Milady?
	Sim?
	Posso lhe perguntar algo sobre seu av?
Ao v-la revirar os olhos, descobriu que adorava quando isso acontecia.
	Sei que ele  bastante peculiar. Todos podem ver isso, ento no custa nada admitir em voz alta.
	Peculiar?
	Que mais eu poderia dizer? Ele  aficionado pelo velho oeste.
	Velho oeste?
	William  Liwy soltou um suspiro impaciente.  Por favor, agora no!
Chelsie, que estava do outro lado, sentada em uma poltrona, explicou:
O velho oeste americano. Eles tinham cowboys, ndios, diligncias, revlveres, bfalos...
Ele ergueu as mos, pedindo silncio.
Nada disso est ajudando. Mas aprecio seu esforo. Depois quero que continue, mas preciso me preparar.
A menina deu de ombros, sorrindo com boa vontade.
	Est bem.
	Agora, milady, se me permite perguntar, qual o nome de seu av?
	Edward Marsh, como se no soubesse.
	No!  gritou William, quase caindo da cadeira que ocupara.  Tem certeza?
	Ei, tenho trabalhado nisso ao longo de todo meu tempo livre h mais de um ano. J consultei minha me, as sociedades de genealogia e as bibliotecas. Se tem alguma coisa de que...
	Silncio! Milady, vejo que  idntica a sua filha. Perguntei
apenas se tem certeza de que o nome de seu av  Edward.
Liwy fez uma careta de indignao antes de responder.
	Sim, tenho.
No havia mais dvida alguma de que o velho era seu irmo caula, por mais estranho que lhe parecesse. Pelo visto, as regras da viagem no tempo eram muito estranhas. S poderia concluir que haviam sido deixados em momentos diferentes do tempo.
Para seu maior desespero, Liwy era neta de seu prprio irmo. Por consequncia, sua sobrinha-neta.
No apenas deveria encontrar um marido para ela, como deveria abenoar a unio, j que se tratava de uma herdeira de sua linhagem sangunea. S lhe restava rogar para que o homem que a desposasse a levasse para bem longe dali, ajudando-o em no cair em tentao.
	Isso  tudo?  indagou ela.
	Se isso  tudo? E no  o bastante?
Os dias que antecederam ao torneio se sucederam com rapidez. William e os trabalhadores construram a arena e tudo o mais que ele dizia ser necessrio, mesmo que no parecesse. No dia anterior ao grande evento, Liwy se reuniu com as pessoas do vilarejo que iriam montar barracas de todo o tipo na ala que haviam determinado como "feira medieval".
Ao voltar, preparou-se para colocar Chelsie para dormir, mas parou  porta, ao ver William sentado  cabeceira da cama da menina.
A garotinha estava aninhada entre o brao e o peito dele, de olhos semicerrados, ouvindo a histria que ele contava, com sua voz de bartono ecoando pelo silncio do castelo.
	...ento o rei Arthur mandou buscar Guinevere para ser sua rainha.
	E Lancelot?
	Voc j conhece essa histria?
	O vov me contou.
	Oh, bem, nesse caso, sabe que deve esperar um pouco para chegarmos nessa parte.
Liwy recuou e se recostou  parede, fora de vista, fechando os olhos para ouvir aquela narrativa melodiosa e agradvel da verso de William daquela histria. Algumas palavras que ele usava eram to estranhas quanto as que seu av dizia quando estava tendo suas crises de esquisitice. Outras eram as mesmas, por mais improvvel que pudesse parecer.
Louco ou viajante no tempo, a verdade era que Liwy gostava dele. Aos poucos, tomara cincia de como estava solitria. Alguns dias antes, tivera-o em sua cama e o expulsara. Se voltasse a acontecer, seria bastante diferente...
Contudo, ele estava se distanciando. No houveram mais insinuaes, nem pernas que se encontravam sob a mesa. Naquele ritmo de afastamento, iria perder a chance de t-lo consigo.
Assim que tivesse uma oportunidade, iria tratar de atra-lo e emendar qualquer dano que tivesse causado ao rejeit-lo. O dia seguinte seria o momento ideal. O torneio o deixaria distrado e seria a oportunidade perfeita para seduzi-lo.

CAPITULO IX

O mundo parecia ter ficado louco. William mal dormiu na noite que precedia o torneio, mas isso no tinha relao alguma com o fato de apenas dois cavaleiros, para sua tristeza, casados, terem se apresentado para participar, O normal era que esses homens viessem de longe e que chegassem muito antes do evento.
Tambm no era consequncia de ambos haverem chegado com os cavalos dentro de carruagens, atadas a suas caminhonetes. De onde viera, costumava ser ao contrrio.
Mas sua insnia era resultado do fato de haver apenas uma parede separando-o de Liwy.
Vinha trabalhando de sol a sol para mant-la longe de seus pensamentos. Passou  frente do cronograma que traara e comeara a fazer algumas coisas antes do programado.
Teve tempo de preparar sua velha lana que encontrou no arsenal, reconstituiu uma de suas velhas selas e juntou partes diversas para fazer a blindagem para o cavalo.
Encontrou at um jovem adolescente, morador do vilarejo, que estava ansioso por ser seu escudeiro.
Antes de amanhecer o grande dia, j estava de p. Colocou sua armadura, j polida e limpa, e foi verificar toda a arena que preparara. Testou tudo e se exercitou at se cansar.
De repente, sua preocupao com o quorum de cavaleiros desapareceu. Um aps outro, vrios homens foram chegando, com seus cavalos sendo rebocados pelas caminhonetes. Aquele parecia ser o padro.
Como estava prximo  rea de acampamento, o primeiro veculo que chegou foi at perto dele, o vidro foi abaixado como que por mgica e o cavaleiro perguntou:
	Onde posso estacionar?
	Voc  casado?
	No. Mas o que isso tem a ver com...
	Ali,  esquerda, onde no h nenhuma caminhonete  interrompeu William, sorrindo.
Mesmo sem saber o que levava todos a lhe perguntar onde estacionar, ele achou aquilo providencial. Separou-os em dois grupos, de acordo com o estado marital. Isso facilitaria muito as coisas.
	Como vai indo?  indagou Liwy, aproximando-se.
	Excelente  respondeu ele, mandando outro solteiro para a esquerda.  Ei, o que  isso que est vestindo?
	O que lhe parece?
"Mas que loucura  essa?", pensou, chocado.
Ela deu uma pirueta mostrando a tnica larga, cravejada de pequenas jias que jamais vira antes, e uma cala. No apenas uma cala comum, mas uma da cor do sol, bastante curta, cobrindo apenas at os joelhos.
	Parece uma tenda!
	 uma roupa de gestante. No consegui vestir nenhum de meus vestidos e achei que o short colante no era adequado para hoje.
	Mas isso  muito...
	Chamativo?  indagou ela, sorrindo como se aquilo fosse bom.
	Isso! Que homem se dar ao trabalho de lhe dispensar um segundo olhar, sabendo que est grvida?
A risada dela foi to suave quanto a brisa da manh, deixando-o quase hipnotizado.
	Eu o vi olhando bem mais do que duas vezes.
	Impossvel. Voc estava dormindo.
Assim que falou, percebeu que havia cometido um erro.
Esteve no meu quarto na noite passada?
Aps instruir o motorista seguinte, William respondeu:
Sim, milady.
Mas no achou necessrio citar o detalhe que estivera l todas as noites. Principalmente porque, na maioria delas, a porta estava trancada.
E na noite em que a lareira ficou acesa, foi voc, no foi? E pensei que tivesse sido Chelsie.
Liwy se afastou e foi procurar a filha, determinada a pedir desculpa por t-la castigado. Primeiro por ter mexido no fogo sem permisso e depois por insistir em mentir que no o tinha feito.
Mas, naquele momento, o que a estava incomodando era o fato de William ter estado l e no ter tentado nada. Pelo visto ele tinha problemas com o fato de ela estar carregando o beb de outro homem em seu ventre. Se soubesse disso, o teria seduzido de tal modo que o faria esquecer de sua gravidez. Nem que para isso tivesse de arrast-lo pelos cabelos at sua cama.
"Hum... Liwy, Liwy..."
Deveria estar mais ansiosa do que imaginava, pois aquela ideia no lhe pareceu to m assim.
William manteve-se alerta, analisando cada um dos cavaleiros solteiros. A seu lado, Chelsie parecia impaciente. Ela concordara em ajudar a escolher um namorado para minha me? mas em cada candidato que ele selecionava, a menina apontava um defeito. Depois de algum tempo, ficou claro que aquilo era uma postura de deliberada sabotagem.
Desistindo, comeou a se afastar,
	Para onde est indo?  indagou Chelsie, preocupada.
	Preciso me preparar para minha participao.
	Mas voc no ia escolher um namorado para sua me.
	Um marido  corrigiu ele.  Mas, como quiser. Que tal aquele?
	Hum, no.
	Ou aquele outro?
	Tambm no.
William apontou mais um sem nem mesmo olhar.
	Ele?
	No.
Desconcertado, passou a mo pelos cabelos.
	Ento escolha um por si mesma.
Chelsie o fitou nos olhos com ar de splica.
	Voc.
Liwy conversou com os competidores e seus familiares durante horas, tentando encontrar algum que tivesse interesse e condio de investir na pousada. Nem os que chegaram em carros luxuosos fizeram alguma promessa mais animadora.
Mas o que ocupava sua mente era um certo "cavaleiro em brilhante armadura".
William havia desamassado, limpado e polido seu traje metlico e fizera um para Silver. De repente, quando estava em meio ao campo, avistou-o e o viu se aproximar. Precisou se lembrar de fechar a boca, pois ficou alguns segundos boquiaberto.
Ele parecia mesmo um cavaleiro de verdade. Pelo menos se aquela histria de viagem no tempo pudesse ser verdade...
Seria? Muitas vezes ela se flagrava tentada a acreditar. Afinal de contas, fora testemunha do desaparecimento de seu av.
	Milady.
	Prometa que ser cuidadoso.
	Claro, no se preocupe comigo.
	Oh, no estou preocupada  mentiu ela.  E que no tenho curativos  mo.
	A tradio diz que a dama do castelo deve escolher um cavaleiro para seu campeo.
	E mesmo?  Liwy olhou na direo dos outros cavaleiros.  Alguma sugesto?
	Muitas, milady. Mas deve escolher apenas um entre eles.
	Nesse caso, ter de ser voc.
	Seria uma honra, mas...
	Vai me rejeitar?
	Bem...
	No creio que seria uma atitude muito cavalheiresca a se tomar, Wiliam.
Ele se ajeitou na sela.
	Seria uma honra, milady.
Liwy subiu no banco de baixo da arquibancada e levou as mos  cabea para desamarrar o leno que lhe prendia os cabelos.
	Eu no tinha nenhuma echarpe. Esse leno de seda servir?
	Sim.
Com gentileza, ela o soltou de seus cabelos e o puxou com lentido, fazendo-o esperar. No tinha prtica em ser provocante mas, pelo brilho nos olhos dele, estava dando certo. Balanando o leno fora do alcance dele, obrigou-o a desmontar Silver para peg-lo.
Quando seus dedos se tocaram, Liwy ficou na ponta dos ps e tentou beij-lo no rosto para lhe desejar boa sorte. Contudo, como se a estivesse protegendo dele mesmo, William a impediu, com todo o cuidado.
Por que proteg-la dele?
Bem, deveria tentar com mais empenho da prxima vez.
J no final da tarde, Liwy estava ficando preocupada. Seu av no aparecera, mesmo com toda aquela movimentao. Decidida a encontr-lo, passou mais de uma hora procurando a passagem secreta que ele deveria ter usado para sair do escritrio.
Cansada, sentou-se  mesa dele e comeou a mexer nas gavetas. Poderia encontrar algum documento que ajudasse em sua pesquisa genealgica.
A nica coisa interessante que encontrou foi uma tela sem moldura, enrolada. Era uma pintura de seu av, com roupa de cowboy, ao lado de uma indgena. Aquilo no a surpreendeu, embora no soubesse o que significava. Frustrada com o resultado negativo de sua busca, voltou a guardar a tela.
Ento, olhando por baixo do tampo da mesa, viu um par de botas de cowboy caindo e tocando o cho com um pequeno estrondo. As botas de seu av.
Na verdade, aqueles ps estavam aterrissando...
Ficando de p em um salto, Liwy olhou para frente e viu o velho logo a sua frente, com uma espada em cada mo, saltitando e rindo como um tolo.
Nossa! Estou ficando bom nessas malditas aterrissagens!
Ela deve ter soltado um grito, pois seu av se virou de repente, parecendo assustado.
Liwy, minha querida! Estou de volta  comemorou ele, colocando as espadas em seus suportes na cintura, uma  frente e outra atrs de si.  Voc me viu aterrissar?
Aproximando-se, segurou-a pelas mos e comeou a saltitar outra vez.
	Eu...
	Ento? Viu s como cheguei aqui?
Aps abra-la, soltou-a e saiu em direo  porta.
	Vov?
	Funcionou, menina. E sei como controlar a viagem!
 ele saiu para o corredor, gritando:  William!
Atordoada, Liwy se beliscou. Doeu.
Meu Deus! Ele no estava louco nem mentindo!
Ao ouvir a prpria voz, tomou cincia de que William no era um bom ator. mas sim o verdadeiro Edward Marsh, lorde ancestral do castelo. A honra dele fora questionada diariamente desde que chegara. Chamara-o de louco e de mentiroso. Precisava pedir desculpas por isso.
Mais do que depressa, seguiu para a arena do torneio, onde ele passara quase o dia todo com Chelsie a seu lado.
Para sua surpresa, encontrou-o em um acalorado debate com Lo, que trajava uma armadura de cota de malha e um escudo negro, com um braso leonino.
Ora, oradizia o empertigado vizinho, com ar de desdm.
Preciso que venha comigo  disse ela, pousando a mo no brao de William.
Milady, primeiro preciso lidar com esse pago insolente.
A risada do gordo burgus ressoava de pouco caso.
Eu estava acabando de dizer a seu amigo aqui, srta. Ravenwood, que o torneio foi uma tima tentativa, mas v. A despeito de tudo isso, o Castelo Marsh ser meu.
Ela sentiu um mpeto de esbofete-lo e se colocou em movimento, mas William a segurou pelo brao, impedindo-a. Lo prosseguiu:
Posso dar um jeito de mant-la aqui, mocinha, se  que me entende.
	O Castelo Marsh jamais pertencer a um Leopold.
O gorducho ficou surpreso.
	Como voc sabe disso?
	Prepare-se para se defender, insolente. A menos que seja o covarde que penso que .
A risada do homem fez sua avantajada barriga balanar. Mesmo assim, ele ergueu o escudo e deu um tapinha na empunhadura da espada.
	Mal posso esperar.
	Esperem a, vocs dois  interveio Liwy, mas William a ignorou e comeou a lhe dar ordens.
	V para a arquibancada e fique l que  mais seguro, milady.
	Voc no vai duelar com esse safado.
	Posso venc-lo com uma mo atada s costas.
	Esse no  o ponto. Quer ganhe ou perca, o castelo ser dele se no pagarmos o emprstimo.
	Depois de venc-lo, vou mant-lo preso e pedirei um resgate. O pago ter de pagar pela prpria liberdade.  o cdigo.
	Lo no vive por cdigo nenhum!
	Eu vivo e o obrigarei a honr-lo. Caso contrrio, cortarei a...
	No! Nem pense com cortar nada. Probo-o de cortar qualquer parte de outra pessoa, entendeu? Pelo amor de Deus! Era assim que vocs, homens costumavam ser?
William arqueou as sobrancelhas com bom humor.
Voc me probe?
Liwy endireitou os ombros. Precisava evitar que ele se machucasse ou se complicasse com a lei.
	Sim, probo.
	Sou o lorde deste castelo e estou na minha terra.
	Sim, eu sei William. Sei mesmo. Agora acredito em voc.
	Ento ir me obedecer.
	S em seus sonhos!
Foi a primeira vez ela que o viu se alterar. Sem nada dizer, franziu o cenho e galopou at a arena. Entregou o escudo e Silver ao escudeiro e gritou instrues aos homens, que abriram espao para a batalha.
Ele e Lo empunharam suas espadas e um dos juizes mandou que deixassem a arena, por estarem portando armas com pontas desprotegidas. O infeliz foi empurrado para longe por ambos.
	Nossa!  falou Chelsie, que fora buscar a paralisada Liwy no canto da arena.  Venha.
	O qu?  indagou ela, mal olhando para a filha, mas se deixando conduzir para a arquibancada, sem desviar a ateno do embate.
	Sente-se, me.
	No posso.
	Est bloqueando a viso dos outros.
	Oh.
Ficando sentada menos de trs segundos, voltou a ficar de p, mordendo a junta do dedo indicador, enquanto mantinha o punho fechado.
Lo investiu com violncia contra William, mas era bvio que no tinha um dcimo da habilidade dele. No demorou para que sua espada casse e que tivesse de correr e se abaixar para peg-la.
No instante seguinte, estava cado no cho, com uma bota em seu pulso e uma espada afiada encostado a seu pescoo gordo.
	Vai pedir clemncia, pago?
	O qu?  Lo tentou engolir em seco, mas nem isso conseguiu fazer.  No! De jeito nenhum.
	Pea clemncia  exigiu William, apertando mais o p e mexendo a espada.
	Como?
	Quer que eu o eviscere aqui mesmo?
Liwy se sentou na arquibancada, com mal-estar.
	O que quer que eu faa?  indagou o gorducho.
	Clame para ficar vivo em minha propriedade at que seu resgate seja pago.
	Quanto?
William olhou para Liwy.
	A quantia que a lady Ravenwood lhe deve pelo castelo.
	Nunca!
Ela fechou os olhos. Finalmente encontrou um cavaleiro em brilhante armadura e, caso ele no fosse sugado para outro sculo, estaria fadado a ir para a priso.

CAPITULO X

A inteno de William, com espada no pescoo ie Lo, era a de salvar Liwy da dvida. Em nenhum momento teve a inteno de mat-lo em frente a mulheres e crianas.
Embainhando a espada, pegou a maa que estava pendurada em seu cinto e agarrou seu oponente pela orelha.
Algum traga um cravo  gritou ele.
Segurando o homem daquela maneira humilhante, levou-o em direo  arquibancada. No havia um poste adequado para pendur-lo, mas qualquer viga que o aguentasse serviria.
O estampido de um tiro de pistola quebrou o silncio. Cavaleiros, espectadores e juizes correram em todas as direes.
Vov!  gritou Chelsie, correndo para abraar a cintura do velho.
No era uma pistola, mas sim aquela pequena arma do av de Liwy. Ento Edward ergueu seu revlver e o apontou para o alto, disparando mais um tiro.
"Da mesma arma?"
	Como isso  possvel?  indagou William, impressionado.
Se tivesse de lutar com Edward pelo castelo uma terceira vez, seria difcil enfrentar algo to formidvel. No que temesse o desafio, mas precisaria arrumar um marido con-fivel para Liwy antes de morrer.
Na verdade, com uma arma como aquela, que no precisava ser recarregada, era mais fcil garantir a segurana de qualquer um.
Edward baixou sua incrvel arma.
Guarde essa espada, William.
Nenhum homem me obrigaria a isso.
Aproveitando a distrao momentnea, Lo escapou. Todo sujo, teve ainda a audcia de gritar desafios enquanto fugia.
Contudo, naquele momento, era o velho que estava no centro de sua ateno. Trajava uma roupa diferente da que usava quando partira. Tinha um colete de couro macio e uma estrela brilhante sobre o peito. No cinturo, haviam suportes para dois daqueles "revlveres". Contudo, o que estava na mo dele estava com o cabo todo riscado, destoando da aparncia nova das outras peas do vesturio.
Uma espada estava presa  frente de seu corpo e havia outra atrs. Pela aparncia, eram as mesmas que ele levara ao sumir.
	Foi muita gentileza sua trazer minha espada de volta.
	Temos negcios inacabados para concluir.
Este castelo  meu, Edward. Vou lutar contra qualquer um que tente tir-lo de mim.
Liwy e Chelsie foram as nicas duas pessoas a restar na arena, alm de Edward e William.
Mais do que depressa, ela se aproximou de av para retirar Chelsie da cintura dele.
	V para trs da arquibancada, querida.
	Mas, me...
V. No tenho tempo de discutir com voc.
Mesmo sabendo que nenhum deles iria ferir a menina,
haviam trs espadas, dois revlveres e uma rixa de mais de quinhentos anos entre eles.
Os espectadores e outros cavaleiros comearam a se aproximar devagar, fazendo um grande crculo ao redor deles.
Contudo, a dupla continuou a se encarar como se fossem as ltimas pessoas do planeta. E foram se aproximando aos poucos, sem fazer a menor meno de baixar as armas.
Metade do castelo era dela. Talvez William se acalmasse se compartilhasse com ele sua parte. Aquilo parecia justo. S restava fazer a oferta.
"Ser que todas as mulheres do perodo medieval passavam por isso?", pensou. Se essa preocupao a respeito dos homens se matarem uns aos outros era uma constante, iria esquecer toda a fantasia que alimentara sobre aquela poca.
Respirando fundo, comeou a falar, mas se virou para olhar se Chelsie estava em segurana:
Bem, homens, baixem essas armas e  ela se virou para eles  e... Ei! O que esto fazendo?
William, que era mais alto, estava com os braos nos ombros de Edward, conforme o abraava. O velho correspondera e ambos trocaram tampinhas amigveis nas costas. E riam como garotos bobos.
	No faz diferena  disse seu av.  O castelo  seu, William. Seja bem-vindo a ele.
Liwy esfregou os olhos, confusa,
	No preciso mesmo dele  completou o grisalho homem.
	Ei, espere a!  reclamou ela, mas no foi ouvida.
	Onde esteve esse tempo todo?  indagou William.
	No fui parar no lugar que desejava, as espadas no funcionam assim, mas era a poca correta.  por isso que no preciso do castelo.
	Ora, eu preciso!  protestou Liwy, indignada, ainda sendo ignorada e se vendo obrigada a ficar entre eles para ganhar alguma ateno.  Compartilhar  uma coisa, vov, mas dar minha parte  algo que no pode fazer. Isso  agir como um senhor feudal, ou coisa parecida. 
Edward.
Aquele sim era o irmo de quem William se lembrava bem. O mesmo que vertera lgrimas quando a cunhada e a sobrinha morreram. Que ficara triste ao v-lo partir, sem data para retornar.
Contornando Liwy, segurou o velho pelos ombros e compartilhou um sorriso familiar.
	 maravilhoso rir com voc outra vez.
	Tambm estou muito feliz, William.
	Com licena  disse Liwy, observando seu av ter os cabelos brancos despenteados por aquelas grandes manoplas de metal.  No estou entendendo nada.
	Voc envelheceu muito bem, no  irmozinho?
	Irmozinho?  questionou ela, estupefata.
	Sim. Este homem  meu irmo caula  bradou William, festejando.
	Oh, William, no acho bom dizer isso em voz alta sussurrou Liwy.
	Por que no?
	Porque as pessoas no entendero nada e mandaro que o levem para um manicmio.
	No somos malucos, querida  disse Edward.
	Agora sei que no so completamente insanos, mas ainda ignoram o fato de que tenho metade do castelo.
	Liwy  murmurou o velho, encarando-a.
	Temos um acordo. Eu consegui o emprstimo, fiz a reforma e providenciei tudo. Voc me deu metade do castelo em troca. Lembra-se?
	Ora, minha neta, mas que situao delicada, no?
	Caso contrrio, tenho o contrato assinado para refrescar sua memria. Estava pensando em compartilhar minha metade com William, mas...
Silncio!  bradou ele, ao ser citado.
Liwy se virou para encar-lo.
Quem teria o direito de compartilhar a propriedade seria eu, milady, no o contrrio. O castelo no pertencia a Edward, logo no poderia ter sido dividido.
Seu irmo pigarreou e gesticulou, chamando-lhe a ateno e comeando a falar.
	Ora, William, talvez o castelo no fosse meu h quinhentos anos.
	E no era.
	Claro, no era mesmo. Concordo. Mas a propriedade era minha trs meses atrs e era meu direito dividi-la.
	Trs meses atrs era tudo meu, do mesmo modo.
	Sim, trs meses atrs, na nossa era, mas no agora, se  que entende o que quero dizer.
	Bem, isso no importa  falou ele, depois de pensar um instante e fazer uma expresso de compreenso.  J providenciei um marido adequado para Liwy, que dever lev-la embora ao amanhecer. Assim que a tiver despachado, estarei pronto para partir. Voc disse que so as espadas que fazem a mgica?
	Voc providenciou o qu?  perguntou Liwy, indignada.
	Um marido adequado, milady.
	Voc no me quer?
	Milady!
O tom dele era de total incredulidade. O mais difcil era definir se o que incomodava mais era a rejeio ou o fato de ele haver ousado "providenciar um marido adequado".
	Quero minha cor de volta!
	Como ?  indagou William, confuso.
Agarrando o leno azul que dera para ele, arrancou-o da presilha do ombro da armadura.
	Irmo, preciso lhe dizer algo  advertiu Edward, preocupado.
	No precisa agradecer por eu resolver esse problema para voc.
	Problema?  repetiu ela, em tom alterado.
Edward recuou dois passos. Na verdade, se no tivesse de manter a tradio de valentia do lorde do Castelo Marsh, teria feito o mesmo ao v-la se aproximar.
	De todas as antiquadas...
	Milady, j lhe expliquei do que se trata.
	...arcaicas...
	Voc precisa de proteo.
	...ultrapassadas...
	S um homem pode cuidar disso.
Liwy caminhou at que seus seios quase tocassem o peitoral de sua armadura. William se censurou por olh-la com ar sequioso e ter pensamentos secundrios sobre sua sobrinha-neta.
	O que me diz de voc mesmo?  desafiou ela.
	Eu? Ora, milady, isso seria errado.
	Hum, William  chamou Edward.
	Por acaso voc  casado?  questionou Liwy.
	No.
	 um "rapaz alegre"?
Sou bastante feliz, mas no vejo o que isso tem a ver com...
As mos dela estavam apoiadas nos quadris.
	Nesse caso, por que seria errado?
	Oua-me, irmo  insistiu o velho.
	Est caoando de mim, milady?
	No. S quero saber do que est com medo, lorde William.
	H algo que vocs dois precisam saber, e depressa  falou Edward, tentando chamar-lhes a ateno.
Liwy colocou a mo sobre a placa peitoral da armadura, de maneira provocante.
No, milady. Isso seria mesmo errado. Eu sou seu tio!
Aps ficar paralisada um instante, ela recolheu o brao e se afastou um passo. Ento olhou para o av, confusa, e franziu o cenho. Estava plida como nunca.
Mas se vocs dois so do sculo XV, ento...
	No  bem assim  interrompeu o velho, furioso.  Vo me ouvir agora?
	Por Deus, fale, homem!  incentivou William, com ar impaciente.
	Bem, quando cheguei aqui, a nica maneira de recuperar o castelo era me casando com alguma herdeira da famlia que se tornara dona da propriedade. A filha nica deles havia perdido o noivo na guerra. Eles me receberam de braos abertos.
	E?  indagou Liwy.
	Ela j estava grvida. No h ligao de parentesco entre voc e William.
	Eu nunca pensei que houvesse.
	Mas ele pensou que havia.
	Oh, entendo...
William mal podia acreditar no que acabara de escutar.
	Nenhuma?  indagou ele.
	Nada.
	Certeza absoluta?
	Absoluta  confirmou o velho.
Ao ouvir aquilo, ele se aproximou de Liwy com grande rapidez, obrigando-a a andar de fasto.
	Sou um homem de honra, milady.
	Sei disso.
Os dois continuaram em movimento, a poucos centmetros um do outro.
Procurei um marido para voc porque achei que era a atitude mais honrada a tomar depois de ter sido rejeitado.
	Mas eu nunca...
	Silncio!
	 verdade...
	Est testando minha pacincia outra vez?
Ao acabar de falar, tomou-a nos braos e acariciou-lhe o rosto com os lbios. Ento a beijou com paixo, como se estivesse comeando a viver naquele instante.
Em vez de ser rejeitado, sentiu-a corresponder de maneira sublime, quase o levando a perder o controle.
Contudo, cometera o erro de anunciar a todos os participantes solteiros que o vencedor do torneio a ganharia como esposa. Embora todos tivessem dado risada, nenhum deles deixou de observ-la e avali-la com muita ateno.
Assim que quebraram contato, William falou:
	Suspeito que devo informar os competidores que o campeo no mais poder clam-la como seu prmio de direito.
	Eu sou o prmio?
	Era. Agora voc  minha.
Edward balanou a cabea negativamente.
	Oh, rapaz, h muito que ainda precisa aprender sobre os dias de hoje. Principalmente sobre as mulheres.
	Ento voc nem mesmo teve a decncia de escolher a dedo um marido para mim?
	No, Liwy. Pareceu-me muito simples: o vencedor se ria o melhor homem de todos. O mais forte e capaz.
Ela parecia estar pensando em algo muito srio, pois estreitou o olhar e o encarou de maneira estranha. Ento sorriu.
	Acho que preciso consultar um psiquiatra. Mas, e se eu achar que voc  o melhor de todos?
	E sou.
	Prove.
	Como, meu amor?
O sorriso dela foi devastador. Ento, com um movimento provocante, ela balanou o leno azul na frente de seus olhos.
V l e me ganhe, claro.
Depois de muitas disputas, todas vencidas por William, Liwy viu Lo reunir uma poro de cavaleiros em um canto, mostrando um imenso mao de notas verdes. 
Ficou claro que a inteno dele no era das melhores. Quase dez homens se espalharam pela arena, formando dois grupos ao redor de William. Naquele momento, ela sentiu vontade de pegar um dos revlveres de seu av e acertar aquele homem nojento, antes que causasse algum problema maior.
	O que  um "mele"? No programa est escrito que  o que vai acontecer agora.
	Voc j vai descobrir, querida.  melhor parte desses torneios de mentirinha  festejou o satisfeito bisav, encarando-a.
O locutor explicou que se tratava de uma exibio daquilo que os verdadeiros cavaleiros da Idade Mdia faziam para se divertir. Uma espcie de vale-tudo moderado.
Ento os homens receberam o sinal e todos comearam a se atracar sem nenhum padro. Foi uma enorme confuso de escudos, espadas com pontas protegidas e maas sem cravo. Mesmo assim era uma grande violncia, alm de ser um evento ruidoso.
Ento Lo e trs dos cavaleiros que o seguiam avanaram sobre William.
Chelsie ficou de p na arquibancada.
Ei, eles esto jogando duro! Quero ele inteiro para ser meu pai.
Ao ouvir aquilo, Liwy ficou paralisada. No havia pensado to longe, mas era bvio. Ao pedir que ele a "ganhasse", estava se oferecendo em casamento...
Eles no esto brincando  bradou Edward, soltando um grito gutural ao ficar de p e empunhar a espada  Com mil demnios!

CAPITULO XI

	No senhor. Nem pense em ir l. Liwy segurou o brao de seu av.
Mas Liwy, querida, aquilo est melhor do que briga de bar! Eu quero ir l!
O velho balanava a espada para dar nfase, o que o fazia parecer mais jovem e saudvel do que era.
Usando toda sua fora, o mximo que conseguiu foi impedi-lo de sair da arquibancada.
	Ento v encontrar um bar para brigar. Vou parar com aquilo agora mesmo.
	No at que eu acerte uns queixos.
	Vov!
	Gh, apenas um, querida, por favor.
	No!
	Ora...  reclamou ele, embainhando a espada e se sentando.  Vou voltar logo para o velho oeste, e preciso exercitar os punhos no queixo de algum.
	No agora. Preciso que fique com Chelsie.
	Ela no vai a lugar nenhum.
	Escute aqui, vov: seja responsvel, pelo menos uma vez na vida, sim?
	Meu irmo precisa de mim.
Liwy olhou para William e constatou que, mesmo com uma proporo de quase dez homens para um , ele estava vencendo. Mas estava ficando mais lento.
Pegando um dos revlveres de seu av, ela disse:
Isso dever resolver.
De arma na mo, ela entrou na arena do torneio para salvar seu cavaleiro.
Quando estava chegando em casa, aps seis anos de viagens e batalhas, William pensou que nunca mais iria querer ver um homem levantar uma arma contra outro.
No se lembrava da diverso que um torneiro poderia proporcionar. Mesmo que aquele "mele" fosse apenas uma encenao, era muito divertido mostrar queles homens o grande cavaleiro que ele era. Podia servir de exemplo para mostrar quo longe um homem poderia chegar com o devido treinamento.
Ele arremeteu, aparou e empurrou, sempre com o mximo cuidado para no aleijar nem matar ningum. Pelo menos at que quase uma dzia de homens que, ou no sabiam que era uma atuao, ou pretendiam mesmo mat-lo, comearam a lutar de verdade. Provavelmente, por ele haver vencido o torneio e conquistado o maior dos prmios...
Contudo, no eram l grandes lutadores. Insignificantes, se comparados aos cavaleiros de seu tempo. Estava to fcil que ele at tirou o elmo para rir  vontade enquanto os vencia.
O som de um tiro de revlver chamou a ateno de todos mas no impediu os homens de continuar lutando. Na verdade, o rudo pareceu incitar ainda mais os outros cavaleiros, que comearam a avanar e se envolver na briga sria.
Em poucos momentos, estava difcil definir quem estava lutando com quem. Cada um batia em quem se aproximasse. Aquilo sim era diverso.
 Parem!  gritou Liwy, disparando a arma outra vez.
Com o grande influxo de cavaleiros para a arena, a luta logo a circundou. Pelo visto, ou a noo do perigo a havia abandonado ou ela no se importava em ser atingida por uma arma.
Mas William se importava, e muito.
Se no fosse por sua musa de cabelos dourados, no teria se divertido tanto no torneio. Era algum por quem valia a pena lutar, tanto em sua prpria era quanto naquela em que estava.
Ento abriu caminho rumo a ela, usando sua espada e o escudo de um de seus oponentes vencidos, removendo cada obstculo que ousasse ficar em seu caminho,
	Saia da arena!  bradou ele, fazendo um balano de espada  direita e derrubando um oponente  esquerda.
Foi uma mera questo de tempo at que a acertassem um golpe. Por sorte no foi nada forte, apenas derrubando-a de joelhos e levantando um pouco de poeira.
Apontando a arma para o cho, Liwy a disparou outra vez. Aquele revlver era mesmo um espetculo. O rudo fez com que os cavaleiros a volta dela se dispersassem um pouco, abrindo uma pequena brecha que facilitou sua aproximao.
	Volte!  disse William, sorrindo.
	Sem voc? De jeito nenhum.
	No estou precisando ser resgatado.
	Ah, ? Suponho que seja ketchup que esteja escorrendo em seu pescoo, no?
Ele levou a mo at o ferimento leve que ignorara at ento. Mas o aglomerado humano ao redor deles voltou a se aproximar.
Ora, isso no  nada. Agora, v!
Antes que fosse possvel tomar qualquer atitude, ambos se viram cercados e jogados um contra o outro. Ao sentir o perfume daqueles cabelos sob seu nariz e senti-la se abraar a sua cintura, no teve dvida. Ergueu-a e colocou-a sobre o ombro esquerdo, protegendo-a com o escudo. Com o brao livre, abriu caminho entre os cavaleiros.
Sabia que deveria deix-la aos ps de Edward na arquibancada e voltar ao "mele". Mas, sentindo o peso dela sobre o ombro, tendo o brao ao redor daquelas pernas, no queria mais participar de brincadeiras com outros homens, tanto quanto no desejava mais deixar aquele sculo. No sem ela.
	Para onde est me levando?  indagou Liwy, sacudindo-se em seu ombro e tentando se libertar.
	Silncio!
Ao ouvir o riso dela, o desejo o dominou com muito mais intensidade do que jamais imaginara.
Conquistara-a de maneira justa e honrada, assim como voltara a ter a condio perene de lorde do castelo. Era a hora de colher sua recompensa por tais feitos.
William, j estamos fora de perigo.
Mesmo no podendo ver o sorriso dela, era como se pudesse ouvi-lo. Liwy estava gostando de ser salva, disso ele tinha certeza.
	Sim.
	Pode me colcoar no cho?
Foi impossvel no rir. No conseguira a esposa calma e quieta que desejara quando estava voltando para casa, mas encontrara uma que era capaz de aquec-lo e mant-lo ocupado por toda a vida.
Claro, daqui a pouco  prometeu ele.
Liwy no tinha dvidas a respeito do lugar para onde William a estava carregando. Seus passos longos encurtavam cada vez mais a distncia que os separava da porta do castelo.
Quando comearam a subir a escadaria, soube ao certo qual cmodo ele tinha em mente.
	Isto est sendo uma tortura para minha barriga.
	Oh.
Mal acabara de falar, sentiu os braos dele se movendo e foi girada de repente, indo parar diante do peito dele, suspensa no ar. O movimento rpido a deixou tonta.
Nossa! Minha prpria montanha-russa.
O nico problema era que havia uma placa de metal separando-a do paraso. E, claro, o pescoo dele precisava de um curativo urgente.
	Machuquei o beb?
	Tenho certeza de que est tudo bem.
Liwy pensou que fosse v-lo fechar a porta com um chute e que depois seria jogada na cama. Mas, ao contrrio, William a colocou de p no cho, com toda a leveza, como se temesse feri-la. Ento a soltou e se afastou, mas no parecia saber se ficava ou se partia, pois se aproximou outra vez. Parecia estar travando uma batalha consigo mesmo.
	Venha  disse ela, tentando facilitar a situao.  Acompanhe-me at o banheiro. Vou fazer um curativo em seu ferimento.
	Milady... Liwy.
	Ao ouvir seu nome ser pronunciado daquela maneira, sentiu a respirao lhe faltar. Enquanto o tratamento por "milady" a fazia sentir-se respeitada, ouvi-lo cham-la daquela maneira carinhosa lhe soou como uma promessa de futuro.
	Vamos ver se precisa de pontos.
	Voc tambm costura?
	Gente? No. Apenas roupas.
	Que lugar  este?
	O banheiro. Sente-se na beirada da hidro... da banheira. Isso, a mesmo.
	Nossa! Esse era o quarto onde minha governanta ficou quando adoeci, na infncia.
	Ela dormia no banheira?
	Na poca, era um dormitrio.
	Oh. Incline a cabea, sim? timo.
Com uma toalha limpa a mida, limpou-lhe o pescoo. Depois de conseguir desamarrar os cordes que prendias as ombreiras, foi retirando blindagens at chegar  origem do sangramento. No era to grave quanto imaginara.
	Se precisar de pontos, eu mesmo posso costurar ofereceu William.  S preciso de um espelho.
	Por sorte, no  nada to grave. Uma bandagem pronta deve resolver. Est doendo?
	No.
	Segure firme enquanto preparo o curativo.
	Para que serve aquilo?  indagou ele, apontando para o vaso sanitrio.
	William?
	Sim?
	O que voc tm usado como sanitrio?
	Como o qu?
	Hum... Para fazer suas necessidades...
	A latrina,  claro.
Foi impossvel conter o riso. S esperava que o tempo no o sugasse dali antes de terem a oportunidade de fazerem amor.
	Ei, no se incline assim. Segure bem essa toalha.
	Por que essa pea tem gua no fundo?
	Isso se chama vaso sanitrio e  usado no lugar da latrina  respondeu Liwy, apertando o boto da descarga.
Ele arregalou os olhos e a fitou, impressionado. Ento, de cenho franzido, apertou o boto por conta prpria, pegou um pedao de papel higinico e jogou no fluxo de gua.
Entendi  disse Wiliam, soltando um riso divertido.
Sorrindo, ela limpou o ferimento mais uma vez e fixou o curativo. Mesmo no precisando verificar nada, apalpou-lhe a cabea e afagou aqueles cabelos fartos e negros. No resistiu  tentao e acariciou aquele rosto forte e belo, mesmo depois de o ver ficar de p a sua frente.
	Liwy?
	Sim, William?
	Preciso ir.
Ela bateu as costas na parede.
O qu?
	Ficar perto de voc est nublando meus pensamentos.
Quase esqueci que no  certo que eu esteja aqui.
	Mas voc no  meu tio, lembra-se? No  casado, nem tem problemas...  Ela riu ao se lembrar da noite em que bateu em William com o travesseiro.  No mesmo, isso eu sei. Nesse caso, qual  o problema?  o beb?
O olhar dele se tornou carinhoso ao se dirigir para seu ventre levemente arredondado.
	Bebs nunca so um problema. E que preciso zelar por sua reputao.
	Minha reputao?  repetiu Liwy, rindo.  William, centenas de pessoas acabaram de v-lo me carregando para o castelo. O que acha que elas esto pensando?
	Por isso mesmo preciso sair daqui o mais depressa possvel.
O fato de ele no ter sado correndo lhe deu esperana. Contudo, coube a ela mesma dar um passo adiante e cobrir a distncia que os separava, colocando o rosto a poucos centmetros do dele.
Ento o sentiu inalar de maneira profunda.
	Que fragrncia  essa, Liwy? Venho pensando nisso desde a primeira vez que a senti, quando a vi curvada sobre mim, no escritrio.
	E mesmo?  indagou ela, passando as mos de maneira provocante pelos cabelos, liberando ainda mais o perfume de seu xampu.  Desde ento?
	Sim.
	 fragrncia de amndoas. Gostou?
Seu tom inocente foi to provocante que pareceu abal-lo, pois recuou to depressa que foi a vez dele de William bater contra a parede. Contudo, o som metlico a fez lembrar que ainda havia uma armadura a ser retirada.
	Sou grato pelo curativo, mas no  apropriado que eu esteja aqui, sozinho, com voc.
Liwy voltou a cobrir a distncia que os separava, encurralando-o contra a parede.
	Mas voc esteve aqui a noite, observando-me dormir.
Lembro-me bem de sua confisso.
	Sim, mas foi durante seu sono. Ningum sabia de minha presena. Agora  diferente. E errado, pois no es
tamos prometidos um ao outro.
Com ar sedutor, ela deslizou os dedos por trs da placa peitoral da armadura, procurando cordes para desamarrar.
Nesse caso, considere-se mais do que prometido...
Ao ver os olhos dele voltarem a brilhar, ficou claro que era apenas aquilo que faltava.
	Voc  bastante ousada para uma dama  murmurou ele, sorrindo.
	Estamos nos anos noventa... do sculo XX. E ento? O que pretende fazer a respeito?
	Bem... Que tal eu tentar me adaptar?
Ao ver a placa peitoral dele cair ao cho Liwy teve certeza de que William no estava se referindo a trocar a latrina pelo vaso... Aos poucos, foi contando as pequenas cicatrizes no corpo dele, conforme eram reveladas. Oito ao todo.
	As marcas de batalha a incomodam?
	No. S estava imaginando quem cuidou desses ferimentos.
Eu mesmo. At das que precisaram de costura.
Conforme se despiam, as reaes dele diante das "mudanas" nas roupas ntimas das mulheres a faziam rir.
Essas novidades o incomodam?
	No, desde que o que est embaixo das roupas continue do mesmo jeito...
	Hum... Isso s voc poder dizer... Por que no examina por si mesmo?
O sorriso dela foi coberto por um beijo apaixonado e sensual.
	Homens e mulheres ainda usam a cama?
	As vezes...
Segundos depois, estavam deitados. Trocaram carcias e se amaram alm do que Liwy achava ser possvel. Nunca tivera tanto prazer. Se era assim que os homens da antiguidade faziam amor, no era de se admirar que as mulheres tivessem tantos filhos!
Pela manh, William havia partido.
Liwy percebeu antes mesmo de abrir os olhos. Desde o cair da tarde anterior, at a madrugada, a cama parecia uma fornalha de sensualidade. Naquele momento estava fria e vazia.
Soltando um suspiro, lembrou-se de como ele fora insacivel, sempre atencioso e muitas vezes divertido. Tanto que conseguiu faz-la sentir-se amada. Mas, naquele momento, no o tinha a seu lado. Teria viajado no tempo? Se sim, por vontade prpria ou no?
Precisava descobrir. Levantou-se e tomou um banho antes de se vestir. Queria encontr-lo e ver se os olhos dele ainda estavam brilhantes e promissores como na noite passada.
Se ele ainda estivesse naquele sculo...

CAPITULO XII

William no teve coragem de acordar Liwy ao amanhecer. Haviam passado mais da metade da noite acordados e uma mulher grvida precisava de descanso.
Enquanto caminhava pelos arredores do castelo, pensava sobre o mundo onde estava. Em seu tempo, era um cavaleiro rico, bem-sucedido, respeitado e muito admirado. Sempre se orgulhara de suas proezas.
Ali, no futuro, no sabia o que esperar. Tinha certeza de que as mudanas de que tomara conhecimento eram apenas uma pequena parcela da realidade que o aguardava.
Tinha noo de que, perante todos, aquele castelo era de Edward e de Liwy, e no seu. Ela iria lutar bravamente para manter a propriedade, mas sem um cdigo de honra, somente dinheiro poderia resolver a situao. Ainda no sabia o que seria necessrio para se adequar o suficiente quele tempo para poder ganhar alguma remunerao.
Pouco depois, Chelsie se reuniu a ele. Como estava entretida com seu bloco de notas, no conversaram por algum tempo, at que a menina perguntou:
	Lorde William, como se soletra "torneio"?
	No fao ideia.
	Bem, s sei que comea com "t", mas isso  tudo.
	Nem imagino como seja.
	E "jias"?
Constrangido, ele balanou a cabea negativamente. Seus conhecimentos eram superados pelos de uma criana naquela era.
	Lamento.
	Acho que posso acabar de escrever isso mais tarde. Poderia ento ler a histria para mim, at onde est pronta?
	Ler?
	Sim, em voz alta. A mame faz isso as vezes. Gosto de ouvir minhas prprias histrias. Ela faz um tom diferente para cada personagem. Fica muito divertido.
	 incomum que uma criana de sua idade saiba ler?
	No. Todo mundo sabe.
	Todos?
Se aquilo fosse mesmo verdade...
	Claro.
Era embaraoso ter de dizer  garota que ele no podia fazer algo que ela mesma fazia corriqueiramente. At ento, pensara Chelsie gostava de imitar escrita com pequenos desenhos, apenas por brincadeira.
Na frente de Liwy, por outro lado, uma situao daquelas seria humilhante. Como poderia honr-la sem ter motivo para se orgulhar?
Sorrindo, acariciou a cabea da menina.
	Pea para sua me ler quando se levantar.
	Mas quero...
	Silncio.
	Mas, William...
	Quieta!
	So apenas trs pginas.
	Voc  uma criana muito irreverente.
Ela sorriu.
	Sua filha no discutia com voc?
	No.
A mame fala que eu discuto como uma advogada. Minha av  uma promotora. Ela trabalha na corte, com o juiz.
	Na corte? Isso  permitido?
	Claro  respondeu a pequenina, com naturalidade, virando-se ento para a paisagem e perguntando:  Isso tudo era seu, muito tempo atrs, no era?
	Sim, era. Ali havia um jardim. L, uma ponte passava sobre o riacho.
	A mame vai compartilhar tudo com voc, se conseguir pagar o emprstimo.
	Ela no conseguiu encontrar um investidor no torneio?
	No. J disse vrias vezes que bastaria vender algumas telas da galeria, mas ela insiste em dizer que isso quebraria o senso de histria do lugar. Vive falando que  isso que um investidor procura, no um castelo vazio.
	Voc ouviu isso?
	O qu?  ela arregalou os olhos.
	Acho que ouvi sua me chamar.
	Ora. Esse truque  muito, muito velho...
Resmungando, Chelsie se afastou e o deixou s.
Em um tempo recorde de trinta minutos William passou de um estado de pura felicidade para a mais absoluta tristeza. Fora o que ainda no sabia, j havia descoberto que era a nica pessoa no mundo que no sabia ler. Como poderia ajudar a manter o castelo longe das garras de Lo?
Liwy o amava, isso era verdade. Mas ela se apaixonara pela imagem do cavaleiro que ele s podia ser no sculo XV. No ali. Quando a sensao de novidade acabasse, iria se tornar alvo da piedade dela. Isso seria insuportvel.
Seria melhor partir naquele instante.
Precisava encontrar as espadas. Como Edward estava de volta, ele poderia cuidar do sustento de Liwy.
Quando Liwy no encontrou William na cozinha, saiu  procura dele pela casa. Contudo, encontrou primeiro seu av, encostado a uma parede em uma das ante-salas dos quartos, como se estivesse esperando para ser fuzilado.
	Vov?  indagou ela, entrando no ambiente, para ver do que se tratava.
	Shh!  advertiu o velho.
P ante p, Liwy se juntou a ele.
Olhando por uma fresta, puderam ver William colocando suas pesadas botas de couro, como se estivesse se preparando para a guerra.
	Nunca vi um homem to infeliz  murmurou Edward.
	Mas...  ela hesitou, pensando: "ele no parecia insatisfeito ontem a noite".  Nossa, acho que fui muito avanada para os padres dele.
	Meu irmo  a pessoa que mais odeia mudanas, em todo o mundo.
	Nesse caso, acho que exagerei muito, vov.
	V falar com ele, garota.
	No creio que agora seja um bom...
No instante seguinte, estava dentro do quarto. Edward, "o traidor", a empurrara porta a dentro.
	Ed... Oh, Liwy.
	Bom dia.
Naquele momento, no soube o que fazer. No havia como desfazer o que j acontecera. Planejara se lanar aos braos dele, mas aquilo no lhe pareceu adequado no momento.
A ateno dele parecia voltada para uma parece, a qual estava chutando com o salto da bota, talvez para ajeit-la no p, talvez para descarregar sua frustrao.
	William.
	Sim?
	Senti sua falta quando acordei.
	Tive de procurar meu irmo. Por acaso estava esperando que eu acordasse e escrevesse um soneto para deixar a seu lado, em meu travesseiro?
Foi impossvel no sorrir. Era difcil imaginar um cavaleiro daquele porte escrevendo poesia.
	Se voc quiser faz-lo...
William deu um murro na parede, abrindo um buraco.
	Hum. Ainda bem que essa parede era bem nova. E fina.
	Acha mesmo que este enfeite que chama de parede vai aguentar mais oitocentos anos, como o resto do castelo?
Liwy olhou pelo buraco.
	Lembre-me de no termos garotos.
Ele abaixou o rosto e disse:
	Oh, Liwy,  melhor que eu volte para minha poca.
Aquilo a deixou atordoada e imvel por alguns segundos.
	Temi que, pela manh, voc pudesse ter sido sugado para o passado. No imaginei que iria querer voltar.
	Ser melhor assim. No me enquadro nessa era. No consigo entender todas essas mudanas.
	Mas, William.
	Mesmo que pudesse, no gosto do que mudou. Passei seis longos anos longe de casa. As vezes, quando estava prestes a morrer, sonhava com o castelo, como costumava ser, e tinha fora para me levantar. Queria voltar, me casar de novo e ter filhos.
	Ento nosso noivado est acabado, certo?
 Muitos filhos.
	Vou aceitar isso como um sim.
	Ser mais fcil se eu partir.
Ela no pretendia deix-lo ir sem lutar. Levantando-se encarou-o de maneira intensa.
	Liwy, no me olhe assim.
	Como?
	Como se fosse uma criana perdida.
"Espernear ajudaria?", pensou, silenciosa.
E melhor eu ir embora do que complicar sua vida. Sabe disso muito bem.
Agora  tarde. J me apaixonei por voc.
Liwy jamais vira um homem to triste.
	No tenho nada a lhe oferecer. Se ao menos houvesse uma maneira de lhe assegurar o castelo antes de partir, eu o faria. Mas o mtodo do resgate no funciona mais. J sei! Posso esconder um pouco de ouro para voc, em meu quarto!
A ideia que se passou pela mente dele fez seu rosto parecer iluminado, Voc trouxe ouro?
	No. Responda, Livvy, ouro ainda tem muito valor?
	Sim.
	Poderia pagar sua dvida com ele?
	Claro, mas no...
	Silncio  pediu William, como olhar distante.  Precisamos de um esconderijo seguro, que no seja encontrado por quinhentos anos.
	Oua...
	Mveis no so uma opo confivel.
	No! Pare com isso.
	Silncio, mulher, Preciso pensar.
	Mas no quero seu ouro.
	Aquilo o fez encar-la, arqueando as sobrancelhas.
	Nunca ouvi falar de uma mulher que no quisesse ouro.
	S o que quero  voc.
	J tomei minha deciso, Liwy.
Se no podia apelar para o corao dele, iria se voltar contra sua honra.
	E quanto a sua promessa de no partir sem me providenciar um marido?
	Nada disso. Depois da noite passada, s de pensar em v-la ao lado de outro homem sinto meu sangue ferver.
	E mesmo?
	Claro!
	Nesse caso, se no ficar comigo, dormirei com um homem diferente a cada semana.
	Liwy...
Se era para blefar, deveria apostar alto.
	No, melhor ainda, um a cada dia!
William teve o sangue-frio de beij-la na testa.
	Encontrarei um lugar adequado em meu quarto para esconder o ouro. Ento encontrarei meu irmo e pegarei as espadas. Estarei bem, voc ver.
William estava vasculhando o castelo quando percebeu o que estava prestes a fazer. Que orgulho haveria em abandonar Liwy, a mulher a quem amava, durante o maior desafio de sua vida? Como poderia voltar para a tranquilidade de sua prpria era, sabendo que a deixara em apuros no futuro?
No havia ningum para cuidar dela nem garantia alguma de que o ouro escondido no seria descoberto antes, por outra pessoa.
Alm disso, se uma criana podia aprender a ler, ele tambm o faria. Se precisassem de dinheiro, vestiria sua armadura e se tornaria um cavaleiro de aluguel, como Tom e os outros. Pelo menos at que pensasse em algo melhor.
Alm do mais, poderia ficar com Liwy. Se algum tentasse tir-la dele, cortaria fora a mo do infeliz.
Ao continuar sua busca por Edward, tinha em mente apenas encontr-lo para lhe dar um abrao e desejar que fizesse boa viagem em seu prximo salto no tempo.
Liwy estava frustrada.
O lado bom daquilo era ter muita energia para gastar e nenhum alvo especfico, ento era possvel fazer seu servio com muito mais eficincia. Em pouqussimo tempo, entrou em contato com todos os possveis investidores que encontrou na lista telefnica.
Por sorte, um deles era parente de um dos cavaleiros que haviam disputado o torneio e ouvira falar muito bem do Castelo Marsh. Depois de uma longa conversa, garantiu que iria pensar nas possibilidades e que retornaria a ligao no mesmo dia.
Esperanosa, ela se levantou e olhou pela janela. Precisaria encontrar William e tentar convenc-lo a esperar mais um pouco. Ainda havia esperana.
Quando j estava comeando a ficar apavorada, pois no conseguia encontr-lo, nem a Edward, o telefone tocou.
Pensara ser o investidor, com boas novas, mas era apenas sua me, repreendendo-a outra vez por Chelsie continuar falando sobre cavaleiros e torneios, tendo acrescentado o tpico "viagem no tempo", ao roteiro.
Contudo, ao ouvir a velha sra. Ravenwood lembr-la, pela milsima vez, que nada a prendia a Europa e que deveria voltar a Amrica para morar com ela, uma ideia lhe ocorreu. Sua me tinha razo em uma coisa.
Nada a prendia a lugar nenhum no mundo.
O que importava era que estivesse com William, quer fosse no sculo atual ou no dele!
William chegou ao escritrio pela quarta vez mas Edward estava l ainda. Ao se virar para sair, encontrou Liwy entrando apressada.
	Oh, William,  voc. Graas a Deus que ainda no partiu.
Ele a olhou com ternura, imaginando a melhor maneira
de se desculpar por ter ameaado partir e de dizer que ficaria, quando seu irmo entrou na sala, com as duas espadas em punho.
	Estive procurando por vocs dois.
	Espero que no para lutar.
	No  o velho uniu as espadas em um golpe.  Estou fazendo isso pelo bem de vocs.
	Duvido  murmurou ela.
	Voc tem uma escolha a fazer, William. Pode ficar aqui, na era de Liwy, ou voltar para a nossa.
	Mas Edward, j tomei minha deciso. Ia mesmo contar a...
	Eu j no tenho mais o que fazer aqui. Estou voltando para me encontrar com Buffalo Bill. Voltarei para a Amrica do passado, de novo.
As espadas foram batidas pela segunda vez.
Acredito que se possa ir para qualquer lugar que se pense com firmeza e determinao  prosseguiu o velho, diante do silncio de ambos.  No sei todos os truques disso aqui, mas o bom senso me diz que no posso ter dvidas em minha mente, ou no vou para onde quero.
Assim que uniu as armas pela terceira vez, comeou a ser envolvido pela nuvem escura. As espadas caram aos ps deles, enquanto Edward era sugado para outro tempo, dizendo:
Adeus. Digam a Chelsie que eu a adoro, assim como a vocs dois. Darei um sinal de que cheguei bem.
Liwy estava boquiaberta e William a segurava para evitar que se movesse.
Nossa!  murmurou Chelsie, que estava parada  porta.  Ele pode mesmo fazer a viagem!
Enquanto os adultos testavam o cho para ver se o efeito j havia mesmo passado, Chelsie no parou de falar.
Contudo, o que eles no esperavam era que a menina corresse para l e empunhasse as duas espadas.
	Filha!
	Chelsie, no!

CAPITULO XIII

William saltou em direo  menina, segurando-a e puxando Liwy consigo. Se fossem sugados no tempo, era melhor que estivessem juntos. No conseguia imaginar a vida sem elas. Mas nada de extraordinrio aconteceu.
Oh, filha...
O alvio dela era bvio. Ele prprio, mais do que ningum, conhecia a dor de perder algum a quem amava. E pensar que quase a deixara por orgulho.
Aps separar as duas espadas por uma distncia segura, ajoelhou-se em frente a Liwy, falando:
Meu amor, voc me daria a honra de se casar comigo?
As sobrancelhas dela se arquearam. No era aquela a resposta que esperava, j que ela mesma dissera que estavam noivos.
	Casar?
	Isso.
	No sei.
	Agora seria o momento ideal para se lanar em meus braos e dizer "sim".
	Lanar-me?
	Sim, acho que sabe como. Foi um timo mergulho o que deu na cama...
William parou de falar quando ela teve um suposto ataque de tosse.
	Algo na garganta?  indagou ele.
	, isso...
	Minha resposta, talvez?
	No creio.
Diante daquela impertinncia, s lhe restava ficar de p e declarar:
	Bem, no importa. Sou o lorde do castelo e determino que nos casemos de imediato.
Ao ver Liwy cerrar os punhos e lev-los aos quadris, ao mesmo tempo em que Chelsie cobriu o rosto com as mos, William percebeu que cometeu um erro.
Ento voltou a se ajoelhar.
	Isto , se essa for sua vontade tambm, meu amor.
	No estou vestida para a ocasio.
Ele cobriu os ouvidos de Chelsie com as mos e sussurrou:
Se estiver nua, melhor ainda. Assim a lua-de-mel comear mais cedo.
O rosto dela expressava uma certa preocupao. No a fez corar, como pretendia.
	Isso no daria certo.
Surpreso, levantou-se outra vez.
	Est me rejeitando?
	Eu no disse isso.
	Ento fale a minha lngua, mulher.
Liwy estreitou o olhar.
	Se eu voltar com voc, vai falar comigo nesse tom o tempo todo?
	Voltar comigo? Oh, claro. Ainda no consegui falar...
	Chelsie e eu no estamos vestidas de maneira apropriada para ir ao sculo XV. Se me der algum tempo, posso conseguir trajes com os atores. Ser mesmo possvel que viajemos os trs ao mesmo tempo?
	Liwy, eu no vou voltar.
	Talvez se nos abraarmos...
	Silncio!  ordenou ele, observando-a arquear as sobrancelhas.  Quanto tempo os homens vivem nessa era?
	Pretende ficar?
	Sim.
	O que o fez mudar de ideia?
	Se eu a levasse para o passado, iriam decapit-la na primeira noite.
	A guilhotina?  perguntou Liwy, levando a mo ao pescoo.
	Exato.
	Voc no ousaria...
	No eu, mas outros nobres, como o irmo de meu pai, no hesitariam em conseguir uma ordem real para faz-lo.
	William, voc sabe que se no pagarmos o emprstimo at amanh, perderemos o castelo.
	Sim  ele pegou sua espada e estendeu o cabo, cravejado de jias, na direo dela.  Acha que isso bastar?
	So reais?
	Sim.
	Se a vendermos, no haver mais nenhuma chance de voltar no tempo.
	A escolha  minha. Se voc me aceitar, ficarei feliz em ficar. Caso a espada no seja suficiente para pagar a dvida, encontrei as taas de ouro de minha me em uma das passagens secretas da parte inferior do castelo. Creio que ningum entra l h sculos. Sorte a nossa. Reunidas, essas peas devem resolver o problema imediato.
	Deve.
Liwy inclinou a cabea para o lado e William soube que haveria algum tipo de acordo ali. No havia outra opo exceto esperar.
	Nada de ficar mandando em mim?
	Nos trataremos como iguais  concordou ele.
	Sem aquela histria de arranjar casamentos para nossas crianas?
	Mas... Certo. Nossas filhos podero escolher quem quiserem. Est feito.
Ao v-lo se levantar, ela disse:
	Ei, no to depressa...
	Agora  a minha vez, milady.
	 mesmo? V em frente.
	Voc me ensinar a ler.
	No diga que...
	Silncio! Apenas concorde.
	Est bem, ensinarei.
	Ir obedecer minhas ordens em questes de grande importncia.
	Nem em seus sonhos.
William soltou um suspiro, sorrindo com bom humor.
	No me culpe por tentar, querida.
	Eu entendo  disse Liwy, rindo.
	Por fim, ir parar de fazer mudanas no castelo.
Mas, amor, iria ficar uma pousada muito bonita.
Ficou claro que no estava apto a negociar com ningum do sculo vinte, mas seria muito mais fcil aprender a dirigir uma pousada do que transform-la em uma pessoa subserviente.
J negociamos demais. Responda  pergunta. Voc em dar a honra?
Houve uma longa pausa.
Mame!  protestou a menina.
Liwy cobriu os lbios de Chelsie com a mo.
	A honra, milorde, ser toda minha.

EPLOGO

Castelo Marsh, um ano depois	

Liwy ficou atrs da parede do corredor, olhando-os pela fresta da porta. Demorou de propsito para se reunir ao restante da famlia, s para poder observar William ler uma histria para o beb, em um brao, e para Chelsie, inclinada em seu ombro. O fato de ele estar de armadura naquele dia no parecia incomodar nenhum deles.
	Ser que algum dia irei encontrar um prncipe encantado?  indagou a menina, j com nove anos.
	Se tirar essa gargantilha da boca, eu mesmo lhe encontro um  disse ele.
Separando os dentes, a garota deixou o cordo dourado voltar ao lugar correto, junto ao peito.
	Promete?
	Depende  William franziu o cenho com ar divertido.  Quanto ir me custar?
Chelsie riu.
	Nada.
	Ser que sua me vai demorar para chegar aqui? O pequeno Edward precisa ser trocado.
	Troque-o voc mesmo.
	No.  a vez dela.
 Ento, porque a pressa?
Se ela demorar muito, minha armadura vai comear a enferrujar.
Liwy, usando o leno azul ao redor do pescoo, soltou um riso suave e entrou no quarto, para salvar seu marido da imobilidade.
Quando encontrar um prncipe para Chelsie, por favor, arranje um do nosso sculo, sim?
Pode deixar, meu amor.  O sorriso de William a deixou com as pernas trmulas, como acontecia logo que se conheceram.  Ser melhor assim.
Entre risos e carcias, Liwy sabia que aquele amor, aquela felicidade, tinha nascido com um poder mgico: a fora do prprio tempo.
Era a vontade do destino que eles se amassem eternamente...

FIM
